O ENCANTO DOS CANTOS: nos espaços e músicas da cidade

São percepções. Nossa alma, com um certo encantamento, se alimenta de tudo aquilo que escutamos e a que olhamos, mediante linguagens bem elaboradas nessa leitura, ou não. Pois essas, mesmo quando meras observações, podem ser individuais ou coletivas. Se for num grupo de muitas pessoas e nos lugares da cidade, se dá em comunidade e num exercício de cidadania que vai se apropriando do espaço urbano. É como memória cultural do local para todo o povo da cidade. Foi assim com o movimento mundial Urban Sketchers aqui em Florianópolis neste mês ali na Barra da Lagoa, como se vê pelas fotos desta páginas. Para mim, senti essa espécie de musicalidade no ar também em um rol de muitas outras ocasiões locais e cidades do Brasil. Pois faço desenhos em grupo desde 2014, em ruas de muitos e diversos lugares, sobretudo no sul brasileiro. Penso que é uma marca dessa atividadeo o seu caráter coletivo. É arte de desenho breve e ligeiro, realizado de forma comunal que, em certo sentido, se contrapõe à obra individual, que aconteceria num lugar longe e isolado das cidades; ou até mesmo no ateliê pessoal de um artista, ali como arte construída num compartimento que é ao mesmo tempo sua torre, templo ou castelo da criação solitária, naquela sua maneira pessoal de ver o mundo. E então quando falo isso, aí me perguntam porque eu aqui enfatizo visão e audição para se encantar a alma, deixando de lado paladar, tato e olfato, que também sempre nos afetam como viventes. Pois sim, e respondo já: esses são sentidos mais vicerais e, portanto, mais individuais ou inter pessoais. Eles nunca são banidos no grupo, que permanece duas horas desenhando juntos o mesmo local. Entretanto, são sentidos que se referem a chacras inferiores e basilares, que se mesclam à percepção visual e sonoras dos espaços urbanos mediante interatividades já mais isoladas, entre os participantes e mediante proximidades ou afinidades que se manisfestam livremente, como em toda comunidade democrática que se preze.
Nas demais espécimes vivas da natureza - animais e vegetais - é mais fácil reconhecer e aceitar tudo aquilo que fazem, coletivamente ou não, para seguir em frente nas suas evoluções. Porém para nós, da espécime homo sapiens, há dez mil anos começamos gradualmente a perder ritos mais primitivos para aprimorar as rotas da nossa descendência desde aqueles comportamentos vindos dos antepassados. Manipulando saberes e pensamentos, viemos todavia até aqui nos perdendo nos nossos peculiares signos para enfrentar problemas simples, tais como manter e cuidar do meio ambiente. Nos descuidamos a ponto de comprometer e ameaçar hoje todo o planeta com elemntais de radiação nuclear, por exemplo. Certas invenções humanas já deixaram de ser de nosso interesse coletivo para somente concentrar a satisfação exacerbada de interesses individuais, por exemplo como a de investidores em mercados multitrilhonários, tais como indústrias em armas de guerra, domínios de territórios ainda com jazidas minerais, biomassa e outras reservas, muita da energia fóssil para sintéticos imperecíveis, defensivos venenosos ou mesmo esses tantos serviços publicos essenciais a serem concessionados de forma fraudulenta e ineficaz, entre outros. A própria cotação e valor de moedas em operação, cunhadas ou eletrônicas, deixaram de representar um lastro de emissão e sim de um poder hoje bem escuso de certas nações, sob mando de grupo já minúsculo de indivíduos, com poder sobre toda a humanidade. Esse descaminho, sem entrar mais fundo em novas ou outras delongas, são mais do que suficientes, como motivos, para nossa festa e júbilo ao ver de perto renascerem essas atividades comunitárias com cunho popular, pacífico e bem solidário, tais como um sopão ou um mutirão de obras ou um desenho em grupo pelas ruas, nas nossas grandes cidades.
Os tantos fatores que nos levaram, como espécime humana, a esses problemas e ameaças atuais que citei, são de longa data e monta. Quem quiser ler minhas postagens anteriores deste blog poderá encontrar um e outro comentário sobre o histórico da sociedade humana e das suas comunidades. E, para aqueles que não podem ou não querem se dar a essa leitura retrospectiva, tento fazer aqui um resumão, neste parágrafo. Ao contrário dos demais primatas catadores e geralmente frugívoros, passamos a nos alimentar também com carnes, o que nos habituou a processar, guardar e conservar alimentos. E mais do que isso, com aves e pequenos roedores aprendemos a plantar e com mamíferos menores a pastorear rebanhos. A produção de alimentos nos permitiu ter assentamentos, sob formas graduais: no início sob tendas pratiarcais, a seguir para aldeias de trocas entre essas e, bem depois, para cidades. Essas eram mais ou menos fortificadas ou armadas, de acordo com os bens e ferramentas que acumulavam. Nessas cidades a linguagem se desenvolveu para ampliar os encontros e trocas entre peregrinos ou visitantes, sobretudo de saber e de conhecimento entre as tendas patriarcais. Bem depois, o surgimento de reinados e potestades para as decisões, com todos seus cardeais e generais, contendo muitas comunidades, ininiciou uma certa estagnação nessas relações entre povos diferentes. Seguiram-se também embates internos entre a ciência e a fé, na chamada idade das trevas e nos chamados ¨decobrimentos¨navais até ao final da Inquisição. No meu ponto de vista, a humanidade só voltou a evoluir suas práticas quando todo o conhecimento deixou de ser assunto associado a fé religiosa ou à técnica para guerra e defesa, sobretudo no final desse segundo milênio da Era Cristã, o qual terminou há cerca de 122 anos atrás. Em 1900, a ciência laica e o projeto republicano se firmaram, sem mais exigir que as comunidades dependessem de monarca, bispo ou general para dizer ou decidir aquio que fariam nos dias seguintes ou com suas vidas. Comunidades e povo decidiriam seu caminho e escolheriam seus gestores, substituindo-os quando necessário e periodicamente. Nações e Governos como os conhecemos hoje só existem há 122 anos e as cidades existem há dez milênios. Estamos, então, vivendo ainda numa experiência nova de poder. O Brasil tem uma boa Constituição e uma Democracia que só se firmou em 1988. Entre nós a votação é direta e todo cidadão vota. Norteamericanos e russos têm ainda votações indiretas, mais imperfeitas que as nossas. Só temos aqui 34 anos de eleições populares portanto, e há por enquanto uma única suspeita para os golpes justicialista que destituiram dois dos governantes, nesses períodos, devido a movimentos populares nas ruas. Assim, ruas das cidades são o espaço urbano de toda democracia e da celebração musicalizada e luminosa do encontro entre os cidadãos, com artistas e nossos desenhistas, também esses a esboçar os passados para rascunhar futuros.
Em certo sentido, bem antes das ditas e chamadas tecnologias modernas, - como as máquinas na revolução industrial, a luz elétrica, a telefonia, a informática e as redes sociais em celulares por exemplos - vínhamos construindo nossas coisas e nossa vida numa linguagem ainda mitológica, porém para um modo de vida assente na ciência também. Por exemplo, uma numerologia decimal e o calendário cósmico de quatro solstícios trípticos: ambos vêm de visões ancestrais como são os casos da pitagóriga pentagonal, da taoista dual e da hebraica dobletríptica por exemplos, as quais ainda, até os dias de hoje, determinam e marcam nossa rotina. Fora o dia e a noite essa numerologia foi sempre tratada como visão mitológica, a maioria das vezes mesclada com a fé, a religiosidade e o poder. Sabemos que a hierarquia nopoder de mando tem duas origens: nessa de ciências que se fantasiam em fé templária e nas estratégias militares de domínio tático sobre territórios e cidadelas. Então essa lógica (na realidade bastante ilógica e desatualizada) de poder - monocrático patriarcal paternalista e machista - vem de longe e se mantém reproduzindo suas condutas até hoje, até mesmo dentro das redes sociais e demais instrumentos de Comunicação Social, isso ali, bem no cerne da Tecnologia atual de Informação. Isso vem ocorrendo porque os seus insumos simplesmente não apreentam nada além de velhas crenças e conhecimentos usados no passado, como os princípios de fé, os quais foram nada nais que um formato linguistico de caráter pedagógico e intimidatório naquelas sociedades pré-medievais, desde lá gerando sofrendo diásporas sucessivas e milenares, com novos mestres ou mesmo profetas, fosem esses à epoca bem ou mal intencionados nos seus projetos, pois ainda navegavam entre o saber e o poder. Até mesmo os chamados heróis colonizadores chegaram ate às Indias Orientais e Ocidentais, usando "midias" e linguagem de crenças para subordinar os gentios e transformar e mercadoria suas as ciências e as artes e as técnicas de produção dos povos - como a pólvora, prensa, milho, tomates e batatas, por exemplos - se apropriando delas para suas novas fronteiras mercantís europeias de produtos e de serviços, firmando assim seu domínio cultural e econômico de caráter eurocêntrico.
Por fim quero registrar, no início deste mês com festas juninas tradicionais, que os desenhistas de rua organizados em grupo na cidade de Florianópolis estão mostrando seus trabahos a partir do dia 06 na Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina, em seu espaço cultural Cruz e Sousa. Isso é uma grande alegria para nós todos, que apropriamos no papel,- em traços, em riscos,linhas ou pinceladas - os lugares desta linda cidade. A prática de arte nas ruas pode, em breve e no futuro, - como o desenho, a música, dança ou outras expressões artísticas populares - ser uma forma de construir uma nova linguagem de convivência, mais aberta e descolada, sem os velhos estigmas da fé e da guerra, com ações bem e muito mais solidárias, mais colaborativas e menos competivivas, de uma forma ou de outra menos concentradoras, quem sabe assim democratizando mais e mais os poderes e os saberes.

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