“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é ...” canta o poeta Caetano. Porém meus muitos parentes, amigos e amigas - homo afetivos e de outros grupos discriminados -, nunca acreditam quando eu lhes digo ter sido também vítima de inúmeros preconceitos, desde a juventude até minha velhice. O mais doloroso foi, quando divorciado, ser apontado como quem “abandonou” seus filhos; o mais recente foi atualmente, como setentão e por ter me unido a uma jovem, me tratarem como a um velho safado e a ela como uma oportunista aventureira. O problema maior é que esses tantos impasses, que sempre acabam escondendo ou então revelando os chamados “valores morais” de cada um, vão devagar contaminando outros temas mais amplos, como esses da pandemia e da política que, neste ano e no reinício das aulas, nos acometem e atropelam mais do que nunca. Para início de conversa, melhor é tratar do começo. E saber que meus teus e nossos valores morais, os quais nos conferem condutas e visões mais ou menos abertas para avaliar cada realidade e a decidir nela, não são nenhuma inspiração momentânea e sim uma premissa, já gravada em sua memória emocional. Essa consciência tem preceitos de “certo ou errado” muito bem firmados nas raízes da sua ancestralidade cultural e talvez genética. Um preceito não deixa de ser uma norma: que vem sendo há muito aceita como premissa funcional pelos seus ancestrais todos, a cada geração. Os dez mandamentos e outras revelações, são exemplo, ou a noção de pecado sobre qualquer exagero, sejam eles nos prazeres, - como a gula, a vaidade ou a luxúria – ou nos dissabores como, também por exemplos, a ira ou raiva, egoísmo, cobiça e inveja. Aí começam os problemas: quem dos chamados não perdedores, entre esses tão festejados ou venerados “vencedores” da sociedade atual não é, na realidade, um pecador, um corrupto ou um corruptor, direta ou indiretamente?
As premissas, tidas como valor permanente, sobre hábitos adotados ao longo dos tempos em geral, podem muito bem ser conservadas e preservadas se forem analisadas e avaliadas por critérios mais modernos e atuais, que lhes confiram maior clareza e compreensão, vistos como práticas com maiores sustentabilidade, equidade e isonomia, por exemplos. Essa sacralização lhe dá um conteúdo laico, mais do que ecumênico, para fins de proteção da vida. A melhor delas é o Não Matarás e Não Cobiçarás e as demais nas tabuas da lei de Moysés. Já os preceitos ficam para regras humanas e mutantes. Um preceito como diz a palavra é norma “pré aceita”. Ou seja, foi pactuada informal ou formalmente por determinada comunidade local ou continental, entre suas características culturais históricas. Aqui é o campo onde a democracia já se insinua, como conhecimento de certo consenso ou princípios na Constituição de determinada Nação. Desses princípios pactuados, nascem os Conceitos, geralmente advindos de uma visão ampla mas já com aportes científicos, técnicos e artísticos, que lhe dão um valor local e imediato, no próprio tecido da comunidade e suas práticas normativas mais ou menos deliberadas e participativas. Para finalizar, pois é ... o preconceito é o comportamento e julgamento sem conhecer ou levar em conta antecedentes e conhecimentos anteriores, estabelecido em premissas ancestrais, em preceitos democráticos já pactuados ou sequer em conceitos técnicos científicos ou artísticos atuais e sequer os contidos em conceitos para práticas ou normas legais já pactuadas. O pré-conceito vem de lugar nenhum bem antes dos conceitos: fica no território daquele “achismo individualista - solitário e sociopata muitas vezes - e tem, como objetivos, somente confrontar e ser oposição a todo e qualquer jogo democrático, seja ele de consensos culturais ou de regras normativas. É o da luta, da guerra e da morte, e só pode vir de assassinos ou do capeta!
Por essas e outras, permanece um mistério aqui dentro de minha cabeça: geralmente não vejo quase contradição entre duas posições totalmente opostas na sua aparência ou narrativa. Visões radicais em confronto, sobre qualquer assunto, nunca por mim são completamente entendidas naquilo que desejam dizer quanto aos objetivos aos quais elas insistentemente se propõem e as quais as põem em lutas – agressivas ou discursivas - sob propostas ou ações diametralmente opostas. A pandemia separa os ideólogos, da paz e da guerra também. Recentemente morreu de forma imbecil, aos 74 anos, um ideólogo de conflitos separatistas e excludentes por desprezo a vacina. Uma guerra mundial se desenha no leste europeu para intervir nesse território, entre tantos outras chacinas mundiais, como por exemplo nossas sobre povos originários da floresta amazônica e dos inumeráveis territórios quilombolas ou assentamentos informais no Brasil. Para que existem técnica, ciência e conhecimento que servem para análise acurada de cenários ou pactuar a paz coletivamente – por leis, acordos, assembleias e planos - os caminhos e os destinos da vida sobre o planeta, ou simplesmente os insumos para nosso bairro ou comunidade condominial?
Para que dialogar aqui eu a escrever, se todos nós já temos uma opinião formada individual e uma bússola na mão chamada celular? Cada dia mais nos distanciamos do mundo real: nossas velhas crenças ou saberes individuais tendem a se aproximar de uma fantasiosa fábula em direção a um destino ou cenário feliz de vida, quase nunca pactuado e construído em conjunto, sequer com familiares ou amigos. Radicalidade de embates e falta de critérios nas condutas usuais, antigas ou futuras, atravessam em todas as direções cada passo e decisão; sua minha, nossa e de todos nós. E ainda tornam mais confusas as normas e procedimentos, necessários para que existam de fato e para fixar caminhos estruturados e juntos – em comum- para a sociedade, a economia e a “saúde territorial”, do bairro da cidade e do planeta. Incluo aqui paz e segurança na saúde territorial.
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