PLANETA TERRA PÓS PANDEMIA - Parte I : uma estética para a ética do amanhã

No início era o verbo (em sentido bíblico) ou a energia (em sentido científico). A árvore da vida teve essa origem, isso desde fungos, vegetais e animais. Há dez milênios inicia estágio civilizatório (vida em cidades/civis, copiada de insetos) na evolução do animal humano, o único nessa prática entre os mamíferos, que acabaram rendendo, a nós primatas, cérebro progressivo permanente, desde desenvolvimento da linguagens e dos mercados de troca, para manejos sobre o planeta. Muitas vezes iniciei aulas de Urbanismo com meu desenho acima, eternizado inclusive numa publicação organizada, em São Paulo, na FGV Fundação Getúlio Vargas com a Oficina Municipal, entidade parceira da Fundação Konrad Adenauer no Brasil. Através desta ilustração, eu explicava o cidadão primitivo ter saído de hábitos nômades para iniciar nova vida sedentária em vales como esse do desenho, onde cursos d’água corriam em direção a uma enseada, ao mar ou grande rio. Esse nosso ancestral havia apreendido a plantar e pastorear com os animais e aves que lhe seguiam o rastro, pelos resíduos alimentares que iam deixando, em trilhas de coleta e caça, a cada paragem. Em solos férteis e perto das águas se assentaram para plantio e pastoreio, em pequenas tribos ou em tendas patriarcais. Essas permaneciam afastadas entre si. Gradualmente, membros de cada tribo ou tenda começam a procurar e interagir com outra tribos e tenda, visando sobretudo trocar excedentes de produto, utensílios ou, ainda, algum familiar em período de acasalamento. Nos vales e a jusante do curso d’água principal, uma confortável ravina acaba por se tornar um ponto de encontro para as trocas, que iniciavam após cada colheita ou sacrifício e descarne de animais. Esse lugar pacífico era visitado por todas ou várias das tendas patriarcais, um espaço territorial que vai tomando forma fixa de aldeia, algumas áreas cobertas com local natural para trocas e escambos dos habitantes no vale. Isso geraria e faz evoluir três elementos sistêmicos para a civilidade: depósito de produtos, guardiões do depósito e um templo. Cada um desses espaços avançaria em muitas outras direções diferentes. Nesse último – o templo - linguagem e ciência irão se desenvolver, no início por grunhidos ancestrais, avante em linguagem para acumular saber e dar hierarquia a inovações, que nos afastariam da animalidade. Esse espaço deixou de ser mercado com Cristo e mais de milênio depois deixou de ser academia na profunda reforma cristã. Claro era que, na aldeia, o espaço de depósito faria a riqueza se acumular e mediar vantagens de uns sobre outros, sob o desafio para conservar e medir valores entre riquezas, artefatos armas e produtos. Claro também que os guardiões iriam se armar e subir ao promontório acima da ravina, para de lá vigiar e proteger toda a aldeia contra assaltantes e dragões. Claro que a ordem política se daria sobre esse tripé. Até vários vales se encontrarem no rio maior ou à beira mar, para além do vale, lá surgindo maiores praças e lugares edificados numa grande cidade, unindo então tribos de Israel ou as da Babilônia, com Salomão ou Nabucodonosor, porta-vozes do Conhecimento das Armas e dos Deuses.
Vamos agora dar um pulo de oito milênios, até aquela recontagem cristã do calendário chegar nestes atuais mais de dois mil anos, perfazendo dez milênios das vidas humanas governadas desde essa ambiência urbana, sempre através de conhecimento, produção e armas criadas a partir de cultura emanada em cidades. Chegamos agora, por fim, nesta eleição, nas localidades democráticas do cotidiano nacional, quando escolheremos novos dirigentes de cidades em tempos de pandemia, de olho porém num futuro breve, quando novas vacinas serão aplicadas, para ganharmos um convívio menos letal diante de mais essa virose do planeta que, como no caso das anteriores, também conosco ficará. Há todavia particularidades ou novas atualidades neste cenário de hoje. Sobre elas venho falando nas postagens recentes deste blog. Temos pouco mais de um século na verdade, ou 100 anos se preferirem, tentando se implantar este ainda pouco ou nada conhecido projeto democrático e republicano para se gerir cidades e nações. É uma extremamente jovem concepção de coletividade e de comunidades unidas, nascida lá com o iluminismo de Voltaire, que se propôs a incluir as realidades de servos e mulheres na formulação de novas ideias, não mais sob ameaça dos últimos inquisidores, que assassinavam a razão ou racionalidade em nome de Deus Pai. Toda filosofia e ciência laica (sem religião), do século XIX, que criou essa nova ideia de democracia republicana, continuou e continua, todavia, a ser sabotada por novos inimigos, que combatem sem trégua duas propostas ainda não bem consolidadas: a equidade em oportunidades e a isonomia em direitos, para todas as pessoas, indistintamente. Esses ideais, novamente e hoje em dia, Vêm sendo chamadas de ideologias comunistas. Entretanto, são dois valores básicos para os saberes apoiados na ciência e na linguagem, na técnica ou na arte, e não mais em teologia, como raízes e como arautos do conhecimento. Periódica e sistematicamente são ameaçados por momentos de obscurantismo, guerra ou violência, como este que se observa chegar, ao meu ver, desde golpes de poder recentes sobre grandes nações e cidades, botando no comando pessoas desalinhadas com princípios democráticos e republicanos reais, cuja recente construção está ainda em andamento, desde o século anterior. Esses golpes se prestam a defender uma insustentável e crescente concentração de vantagens, oportunidades e direitos.
O Brasil está sendo exemplo desse atentado, em seu destino incendiário e desastroso mais recente. Senão vejamos: no nosso país, de São Paulo saíram governantes que contribuíram com a nova Constituição para, a seguir, redesenhar uma democracia nacional, após quatro décadas de regime militar. Hoje a cidade vem sendo difamada e sofre enorme desgaste sob desinformação porque, em verdade, é uma entre as dez megalópoles do mundo. Não é por acaso: na contemporaneidade de hoje, essas amplas cidades de dez territórios planetários urbanizados, emanam inteligências, interesses, inovações e a maioria das crenças atuais humanas, sobretudo a partir de seus movimentos sociais e líderes culturais. Vemos nelas desde fim do milênio passado, uma escala de urbanidade que representa e afeta o mundo, formatos e tecnologias estratégicas, grande distribuição de ideias, renovação de linguagem, transformação inovadora e, ainda, defesa inclusiva do projeto democrático humano, de forma recorrente e corajosa, voltada à modernidade plantada lá no século dezenove e que foi sempre abortada durante o século XX, inclusive por guerras raciais e ainda religiosas. Essas ainda se insinuam hoje, a piratear e matar opositores, a desinformar no ciberespaço informacional e na mídia, ou a plantar ameaçadoras milícias nos bairros e templos.
Sou um otimista, no entanto. E se há, de fato, um poder quase feudal já instalado, o qual desde ciberespaços vem definindo valores, linguagens e crenças assim tão retrógrados ou espúrios, como raiz para novos atos violentos ou rotinas concentradoras permanentes, aí recentemente insuflados no cotidiano das populações urbanas, já há, por um outro lado, a resposta ambiental planetária sobre a insustentável manutenção no comportamento e no status informacional assim perverso. Voltemos, então, para o desenho das minhas aulas no primeiro parágrafo. O território e seus assentamentos humanos evoluem em ritmo e em espaço segundo lógicas de causas e efeitos próprios, em relações humanas de vizinhos e num convívio muito mais banal e carnal do que em redes sociais. Pois já se percebe no ar agora, após uma ano de pandemia, uma perturbação geral insuportável, que só cessará ao se restaurar, pouco a pouco, certos velhos sonhos intimistas com velhos desejos pacíficos do século XIX. Por dez milênios já se esgotou o velho tripé Riquezas Imperiais Concentradas, Forças Armadas e Ciências Mitológicas, estas últimas de linguagem muito parecida com os atuais arquétipos mitômanos do ciberespaço, que incluem peitos e bundas patrocinados* como objetos de tirocínio, o que se antepõe à individualidade e à diversidade linda de tudo que de fato é verdadeiro no dia a dia, tal como são nossos próprios naturais desengonçados saudáveis narizes ou partes corpóreas, que nos vieram em bebê e ainda nos acompanham. E é nas vizinhanças de cada quarteirão ou cidade, lugar de trabalhar e viver, que recomeça a melhorar a nossa nação e nossa canção. E a ser melhor nosso planeta, percurso cotidiano para se comer e se amar. Bons e novos dirigentes locais (municipais) poderão conosco vir a sanear de fato todos nossos passos ou espaços entre moradia, trabalho e lazer, lhes dando dimensão adequada para voltarmos a caminhar ou pedalar, por essas paisagens e trilhas cotidianas, sabiamente compartilhadas, nos caminhos da cidadania e da urbanidade.
*... peço perdão antecipado às mocinhas clicadas e patrocinadas na rede social, mas as homenageio no título desta postagem e a elas dedico a próxima postagem - Parte II, provavelmente em novembro. Vocês representam, para cidadão comum, a estética dessa nova ética do “corpo saudável”. E, como ícones ou arcanos ambientais, suas imagens passam a ser melhor debatidas.

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