SINOS E SINAS: os sinais os dias e os tempos

Há um milênio antes da era cristã já existiam sinos na China, artefatos que, na origem, só serviam para sinalizar início e final dos trabalhos coletivos. Sinalizavam mais do que isso e não somente o futuro da própria China, na sua realidade econômica de hoje: há quatro mil anos já fixavam o tempo e espaço territorial para determinadas atividades humanas coletivas, de forma conjunta e ordenada, tendo elas mesmas certas finalidades, porventura segundo algumas regras ou normas previamente estabelecidas para todas as pessoas. Em outras palavras, decerto havia ali determinada “ordem pública” ou produtiva que, em certas rotinas, não dependia de vontade, da fé ou sequer da opinião individual de cada um.
Naqueles sinos se insinuavam nossos futuros republicanos, organizado hoje em várias nações independentes nos continentes do planeta. Suas divisas se fixaram segundo o caráter ambiental e cultural peculiares de cada um dos territórios, e não somente por fatores antropológicos ou voluntarismos militares, ungidos ou não por fé ou benção religiosa. O alerta cabe aqui: algumas mitologias imperiais nos fazem crer, até hoje, de que os seres humanos seriam todo o centro do Universo Divino, a ponto de acreditarem num velho Deus com longas barbas, coitado, à imagem e semelhança (bastante decrépita) do próprio homo erectus, esse animal humano que somos; e que ainda sobrevive e que ainda evolui, biologicamente falando, entre muitos milhares ou milhões de outras espécimes e diversificadas formas de vida, neste planeta e no cosmo, como já se sabe.
A chamada vida “civilizada” da espécime humana nasce com as primeiras cidades que, para o mundo eurocêntrico, se encontravam para leste do paraíso, sob os reinados de mesopotâmicos, hindus, persas e israelitas, a seguir de gregos, de latinos e egípcios, por exemplos, no correr das narrativas da História. Porém e mais adiante, e radicalmente muito mais para além desse leste europeu do Eden, haviam muitos outros povos asiáticos no extremo Oriente, ao sul da África, lá na Oceania e nos atuais continentes americanos, territórios esses nossos os quais, muito depois, seriam também batizados como Índias Ocidentais. Esses povos, como acontece com a disciplina dos sinos, detinham domínio bem mais avançado sobre a realidade planetária. Assim eram os mongóis, astecas e incas. Alguns, como os Hunos pelas estepes, fizeram incursões por terra nos territórios europeus, cuja mitologia humanística e/ou antropocêntrica, fez dos saberes orientais, - como montarias, pólvora e prensa, por exemplos – novas armas de guerra, tais como cavaleiro andante e seus armeiro. Adicionando tais saberes - o sino inclusive e as ciências laicas - sobre suas próprias lutas e tendências militares ou religiosas para conquistar povos, se desenvolveu a seguir ideologia colonialista e imperial, levando europeus a concentrar, acumular e usar todo o conhecimento da espécime humana para dizimar e dominar outros povos fora de seu mundo, a que chamo de eurocêntrico. Isso segundo seus interesses de acumular mais saberes e riquezas; a partir daí então, estabelecendo nações subsidiárias suas nos outros continentes e, através delas, ir lá exercendo cada vez maior e mais efetivo comando europeu de submissão sobre o planeta. Em outras palavras, os dissabores pelo uso abusivo dos recursos naturais desde o interesse econômico unilateral e fora da vontade da sociedade e do cidadão comum costumam vir desse pensar religioso e militar dos bispos e dos generais: eles pensam ser donos do Universo Divino, tendo um Deus medieval e barbudo como seu comandante supremo, permitindo aos vencedores dizimar os vencidos. Esquecendo que graças a isso, além dos pobres são extintos animais, os vegetais e os minérios, podendo assim se extinguir em breve a vida humana sobre o planeta. Como prova de tanta história mal contada e ainda mais pela telemática, ainda hoje chamamos o talharim oriental e o tomate incaico com seu molho ou ainda toda polenta do milho asteca de comidas romanas ou italiana. E isso só já reafirma aqui que vivemos, ainda, um pensamento puramente eurocêntrico. Batata da civilização Inca dita como inglesa ou alemã é esse snack no fast food britânico nosso a cada dia ...
Por quem os sinos dobram, então, agora lhes pergunto. Por todas as páginas dessa história, eu então lhes responderia. Buscando sempre nunca esquecer que, a par de toda nova tecnologia à disposição, é na escolha de cada um de nós, a cada dia, que o mundo se faz ou se desfaz, ou que a verdadeira liberdade de viver se conquista ou se perde. Nossas repúblicas todas deixaram de ser legítimos ou de existir os reinados e as classes de maior ou menor poder hereditário. Esses países todos republicanos têm pouco mais de um século e cada um possui Constituição, lei para coibir decisões unilaterais dos cardeais ou generais, e de Reis ou Inquisidores e Monarcas de qualquer espécie sobre as pessoas. Elas – essas Repúblicas Constitucionais - exigem mecanismos representativos e participativos de decisão já disponíveis na nossa, que se darão sob a legalidade de normas previamente pactuadas em leis ordinárias e regulamentos, como regras de consenso, segundo cultura e desejo de todos diferentes povos e segmentos que habitam esta nação e outras, com as mais variadas culturas e diversidades contidas em seus territórios. Todos e cada um são e somos vidas a se respeitar, a se considerar e a se zelar. Os sinos dobram, portanto, por regras legitimadas pelas maiorias, sendo elas celebradas uteis e pactuadas no cotidiano, por todos nós sem exceção e a cada badalada ou balada. E pelo entendimento e atendimento pacífico e civilizado de todos para essas regras de liberdade, garantidoras da democracia. Onde todos tenham voz e todos respeitem a vida, sem matar ou ofender por motivo torpe a nada ou a ninguém que esteja vivo, neste planeta, em ruas, bairros, cidades ou na natureza. Liberdade, Liberdade: abra as asas sobre nós! Pois é a cada dia que se cria nossa verdadeira democracia.
Então como fazer? Tentarei no próximo mês, quando completarei 76 anos, lhes dar uns sinais que possam nos ajudar a todos. Serão como badaladas de um sino e de uma sina solitária que sou eu, nascido em 1946 e que vivi maior parte da vida no milênio e no século passado. E iniciará por aqui: existem regras e leis que não são de livre arbítrio da espécime humana, tais como por exemplo as que regem as marés e as ondas ou a lei da gravidade. E isso não foi escrito por desejo e decisão de um deus barbudo: melhor dizer que pertencem ao Universo Divino nesse espaço cósmico, maior do que nosso planeta terra. Essas leis regem o surgimento e a extinção da vida, a da humana, como a da grama e dos dinossauros que aqui viveram. Nossa espécie é dotada de gêneses e de conexões neurais complexas para criar assentamentos civilizados, usar linguagens que nos permitem fixar alguns limites próprios de livres escolhas ou arbítrios, até mesmo de partes em pequenos grupos ou mesmo individuais. Porém jamais aquilo que chamamos de livre arbítrio ou liberdade individual poderá revogar as Leis da Natureza. Assim também essa nossa complexidade biológica e de comunicação linguística nos exige criar leis internas e pactuadas entre nós mesmos para melhor desfrutar da vida neste planeta. Todavia temos também que: em primeiro lugar adequar as leis humanas de nossa espécime, - pactuadas democraticamente, necessariamente -, às leis do Universo Divino, sobretudo para preservar a vida sobre os planetas e os corpos celestes. Armas por exemplo são para exterminar vidas e poderiam ser proibidas. E sobre isso os sinos e um ou outro campanário continuarão a tocar: para nos lembrar e alertar que há regras naturais, no andar dos tempos e nesse nosso caminhar. Elas estão acima de nós e sobre quaisquer voos, trilhas ou trilhos em que andamos, de forma habitual, cultural ou política. E essas regras do universo têm que ser observadas e atendidas. Por exemplo, a eterna interdependência entre vizinhos, entre povos e entre espécimes sobre este planeta está entre elas, como a pandemia demonstra. Todo poder tem limite e toda política de desenvolvimento humanitário tem que ser humilde, nunca afrontar toda natureza do Universo Divino. Arrogância e Poder nunca levam a absolutamente nada de bom, mas só a grandes desastres. Pensem nisso, senhores bispos, generais, juízes, governantes, dirigentes e presidentes.

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