Quem como eu nasceu na metade do século passado sabe o que quero dizer com geração romântica. Somos filhos do pós guerra e imaginávamos reorganizar duas coisas no mundo: todo belicismo das ideias que resultaram em genocídios e certa picardia liberal e liberada dos nossos pais, que ou eram muito patriarcais e machistas para esses novos tempos ou, se não, eram eles excessivamente melindrosos, escandalosos e coquetes, especialmente nos lares burgueses mais existencialistas ou informais. Isso porque eles, esses pais, desde 1900, inauguravam todas delícias modernas de estilos artísticos e de pensamentos laicos, nesses tempos propiciados pelos novos e recentes regimes políticos republicanos e nacionalistas, recém instalados na virada do século. Eles haviam herdado, lá do século XIX anterior, uma cultura que transformara de fato o comportamento humano. Todo esse saber foi construído a partir do Iluminismo e desde a derrocada das inquisições, o que mudou em muito relações governativas em nações do mundo, sobretudo a partir de ciências e de novas técnicas. Essas viriam evoluir continuamente, fechando o século XX com informática e telefonia móvel por exemplos, trazendo assim mudanças ainda mais profundas que as da revolução industrial. Essas mudanças iriam alterar poderes para além de regimes estatais e governativos, sempre a partir de novos sistemas produtivos, que mudam as demandas e ofertas nos cotidianos da comunidade e que, por ser assim, geram nova configuração nos territórios e nas estratégias socioeconômicas, desde exploração diferente e mais diversa sobre recursos naturais. Tudo em favor exclusivo do ser humano, como se esse fora a única espécie viva do planeta. Nós os românticos nascidos em meados do século XX, pautamos nossa vida pelos ideias ainda trazidos do século XIX, porém criticando nossos pais que os transfigurara os transformara em guerras, que acabaram numa Guerra Fria de ameaça atômica, numa disputa ideológica insana e bipolar, entre repúblicas democráticas com economias capitalistas ou socialistas. O cinema na metade do século XX marcou nossa adolescência romântica, de acasalamentos sentimentais, e plantando a ideia de paz e amor fraternos na vida em sociedade. E nos fez respeitar as democracias em ambos os lados da guerra fria, pois uma elegia governantes de forma direta e popular, como no Brasil, outras por forma indireta, por delegados de bairro e distritos, ou segmento trabalhista e outras, ainda, mistas e indiretas como as americanas. Devo encerrar este primeiro e exaustivo parágrafo que não mais acredito na modernidade e no liberalismo concebido na primeira metade do século XX. Por isso considero a tal de pós modernidade e o tal neoliberalismo como duas mentiras ou piadas de um certo extremado mau gosto. Pois em verdade nem a modernidade e nem o liberalismo se consolidaram como ideais republicanos e democráticos, como lhes explicarei adiante no último parágrafo.
Como muitos estão confinados e com tempo para isso, antes da vacinação, pela primeira vez este blog lhes passará lição de casa: abaixo indico filmografia que facilita entender aquilo que venho ou ando escrevendo por aqui, com um certo ceticismo, tanto no pensar como no agir, perante esse cômico ressurgimento de ideologias e cultos com perigosas doses de fanatismo. Sobre isso, registro aqui também meu doloroso pesar pelo recrudescimento da violência, recente e crescentemente trazido por eles.
Dois filmes de Bernardo Bertolucci – “1900” e “O Último Imperador” narram bem a transição das culturas feudais humanas e cotidianas do século XIX para as Repúblicas do XX, no primeiro filme as ocidentais, de economia mais liberal, e no segundo para as orientais de economia mais estatal. Caso queira alongar sua visão nessa mesma ótica e observar até a segunda guerra, assista também “O Império do Sol” de Steven Spielberg.
Dois filmes de Sergio Leone – “Era uma Vez o Oeste” e “Era uma Vez a América” narram a origem competitiva e criminosa, que adentra a organização política de governos e tribunais, neste moderno e ainda vigente capitalismo ocidental, em sua influência direta no fascismo das democracias modernas e no aparelhamento de Governos em favor do lucro de poucos em detrimento à pobreza de muitos. Pode esticar esse olhar assistindo ainda o filme “Gangues de Nova York” de Martim Scorsese ou “China Town” de Roman Polanski.
Três filmes sobre os dilemas políticos ou éticos da Fé – “O Nome da Rosa” no filme dirigido por Jean Jacques Annaud ou (melhor ainda) no seriado de Giacomo Battiato com John Turturro sobre obra de Umberto Eco, “Spartacus” de Stanley Kubrick, sobre a rebelião dos servos, e “Quo Vadis”, obra de Mervyn LeRoy dirigida por Mark Herman com Robert Taylor, onde ficam claras as inserções sacerdotais na política estatal e nas suas noções de liberdade, tanto durante a queda da democracia no Império Romano, como na Idade Média, após a derrota do cristianismo oriental de Istambul para o cristianismo Romano na Itália.
Cinco títulos para dilemas éticos humanos, da alma individual perante coletividade social, entre fé e liberdade política – “Vidas Amargas” de Elia Kazan com James Dean, “A Casa dos Espíritos” de Bille August com grande elenco, “Morangos Silvestres” de Ingmar Bergman, “Jules e Jim – uma mulher para dois”, de François Truffaut e “A Estrada da Vida” de Federico Fellini; ainda poderão também rever “Rocco e seus Irmãos” de Luchino Visconti e "O Sol é para Todos" de Robert Mulligam".
Sob a breve visão desses doze filmes, que acima relacionei, diria que se explicam as minhas casualmente céticas ou porventura debochadas opiniões quanto a fios condutores no atual pensamento político, recorrente sobre pandemia ou recentes eleições locais e mundiais, ou, ainda, sobre ideologias rançosas e interpretações erradas nas histórias já vividas, algumas há muito sepultadas pela humanidade, outras tão somente mitológicas e nunca jamais vividas e experimentadas de fato. Entre estas últimas repito que a tal modernidade social, o socialismo real e o liberalismo ideal, foram ideias que nunca chegaram a ser adotados e vividos na sua plenitude pela sociedade humana. Na próxima postagem tentarei explicar “o por que” desta afirmação. Ou talvez, se todos assistirem esses filmes, nem necessitaremos mais entrar em detalhes teóricos. O que importa mais, a estas alturas dos acontecimentos mundiais, é entender que fé e ideologia dão frutos quase sempre perversos na história da humanidade, causam soberba, violência e guerra, ao contrário de arte e ciência humanas. Mais do que isso, fé e ideologia mantém pessoas num mundo de fantasia como este atual, total e tolamente irreal, onde qualquer nova alteração climática, provocada pela soberba sociedade humana de consumo, pode vir a trazer sempre novo e resiliente vírus, a coabitar conosco neste planeta. E quando falo aqui em consumo, me refiro não somente a consumo de bens materiais, mas também ao consumo de modismos e de ideias estapafúrdias, muitas delas resgatadas entre as páginas mais tristes de um passado já vivido. E comprovadamente ineficiente e ineficaz, que, sempre inicia numa comédia e termina numa tragédia coletiva. Boas sessões de cinema para todas as gentes e comunidades. O mundo real vive nas artes e nas ciências, não nas palavras de ordem dirigidas ao fanatismo e à fé. Como Galileu, a Ética definida e escrita por Benedetto Spinosa foi excomungada. Mas todavia no Universo Divino e Real os verdadeiros hereges são os inquisidores.




Comentários
Postar um comentário