Liberdade, Paixão e Carinho: redesenhando as Repúblicas no Futuro

 


O lema da pioneira Revolução Republicana foi “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”: fica melhor minha versão atual, aí no título, ao se tratar das posições de hoje e do novo jeitão no ser humano. Em relação às pessoas do século XIX, hoje somos mais personalistas. Esta realidade cibernética nos leva a conviver junto de comunidades heterogêneas, redefinidas pela ausência de padrões absolutos ou rígidos, tanto nas atitudes, como nas linguagens ou comportamentos.  Caminhamos para um necessário respeito à diversidade. O princípio e a noção mais individualista e massificada de Liberdade colocam padrões da velha Igualdade em campos de afinidade por Paixão, sejam elas de ordem política, de preferência religiosa ou mesmo cultural e artística. Essas paixões de hoje são maiores, mais expandidas e mais enérgicas e voláteis do que aquelas que podiam detectar ideias filosóficas ideologizadas no século XIX ou tendências em pesquisas de opinião no século XX. Daí importa se repensar o significado e significância para Fraternidade, onde optei pelo afetivo e leve termo Carinho, como verdadeiro contraponto à Paixão (por partidos, clubes e crenças, por exemplos), que daria, quem sabe, mais equilíbrio e sustento à Liberdade, como reafirmação laica do Amor Divino, ou seja, tolerância generosa da realidade alheia, sob um olhar mais complacente e carinhoso, como hoje já se dá aos demais seres vivos e a todos ambientes ameaçados do planeta, colocados bem ali, no cotidiano de cada cena, a cada minuto ou sopro da vida. 

Temos tido problemas sim, nas Repúblicas deste início de milênio. Andei aqui conversando sobre estes novos tempos, onde normas e meios de gestão coletiva necessitam inovação e, sobretudo, absoluto expurgo de velhas fórmulas e axiomas comprovadamente nocivos, ineficientes, ineficazes e sem mais qualquer efetividade para dar paz à realidade de agora. Veja no exemplo desta pandemia. As soluções no cotidiano só vem acontecendo por conta de ação e mudanças efetivas na atitude, na paciência e generosidade concreta de todos. As esferas de governo e as nacionalidades, ou mesmo os status econômicos e culturais já perdem a importância de antes nestes dias de isolamento e de distanciamento social. E é nesse ambiente quase troglodita que pode crescer o esboço do novo modelo republicano e democrático de liberdade, muito mais simples e humano, já que cada vez mais governos e gestores privados vem se fazendo reativos e quase nada proativos. Passa a ser hoje bem mais natural se imaginar uma democracia definitivamente participativa, que simplifica ou mesmo venha reduzir ou quem sabe substituir a democracia representativa, dando poder ao cidadão para, de fato e de direito, influir ou decidir as definições de rumo nos serviço de interesse público. Pois vimos já agora, passo a passo, ocorrer a adoção gradual da máscara facial contra viroses, independente de decretos, desde a hegemonia e exemplo do cidadão consciente e solidário, no nosso bairro e em todas as calçadas do mundo. Nessa matriz, há um pequeno exemplo que se insinua. E não se trata da ineficiência dos governos, mas sim de uma nova linguagem institucional, mais participativa e operativa em decisões coletivas.

Neste terceiro e último parágrafo, me farei valer de certa experiência pessoal minha, bem concreta e vivida no Setor Público, que se soma às três gerações anteriores dos meus pais, de onde servidores e construtores das repúblicas modernas vieram, desde o século XIX. A exemplo ou ilustração, um de meus avôs trabalhou princípios positivistas no liberalismo da caserna e o outro, que era engenheiro ferroviário, fundou partido anarco-sindicalista, em congresso de 1906 no Rio de Janeiro, meu pai foi dissidência do trabalhismo getulista para fundar o Movimento Trabalhista Renovador com Fernando Ferrari, pouco antes da eleição de Jânio Quadros. Fui, por minha vez, arquiteto urbanista e “city menager” em municípios e consórcios regionais, tendo participado ativamente na construção da Reforma Urbana legal, após promulgada a Constituição Nacional de 1988. Portanto, imagino as Repúblicas do Futuro (e também os conglomerados produtivos privados) mantendo plena e mais estreita aderência “on line e de mercado” com toda a sociedade, nas pessoas de seus cidadãos, clientes ou consumidores, trabalhadores ou colaboradores e possíveis agentes e atores intervenientes, num processo de cogestão bastante orgânico, ainda sob pactuação e repactuação permanentes, por canais cibernéticos e ações concretas responsivas e interativas. Isso significaria um novo universo, de pouquíssimas fronteiras entre nações, entre instituições e entre setores clássicos destas atuais culturas produtivas e políticas, ao sabor da arte e da ciência humanas. Tentarei falar mais sobre isso nesse próximo mês.             

                


 

 

Comentários

Postar um comentário