TORRE DE BABEL – da bíblia à internet: o desafio da linguagem


Uma passagem bastante conhecida da Bíblia é a parábola da Torre de Babel, um projeto do povo de deus para edificar uma torre, que se aproximasse do céu, de um modo assim que homens ficassem muito mais próximos talvez mais íntimos do Todo Poderoso, Criador adorado dos céus das águas, da terra e do fogo sagrado. Nessa narrativa ou passagem do livro, quanto mais a torre crescia, na direção do céu e do Senhor, menos se entendiam os homens entre si na construção; culminando ali o surgimento de diferentes idiomas, em tribos e nações de linguagens diversas, condenadas a não ter um projeto conjunto ou união no entendimento da palavra: merecido castigo pela alta pretensão à divindade.  

Considerando estudos laicos atuais de comunicação, linguística, semiologia e semiótica, posso ponderar a Torre de Babel como sendo a passagem mais metalinguística entre todo texto bíblico, lembrando que o Velho Testamento serve, ainda hoje, como conhecimento metafísico aos mundos judeu, cristão e muçulmano. Como primeiro livro sistematicamente escrito pelas civilizações, é verdadeira coletânea de saberes e conhecimento acumulado nos primórdios da urbanidade. A bíblia fala de si mesma nessa passagem da Torre de Babel; ela admite possibilidade de que gerará muita tradução e interpretação sobre seus registros, talvez podendo mesmo dividir entre si os povos, ideias e princípios que nela se entendam, pode delinear  e nutrir debate entre crenças diferentes que nela creiam e entre pessoas que a leiam com atenção e apreciem seus conteúdos. Essa parábola e versículos admitem cada pessoa ou tribo tendo versão, interpretação e aplicação diversa sobre um mesmo conhecimento e saber histórico de trecho narrativo, a partir do texto bíblico.
Esta em Curitiba é a primeira universidade no Brasil, iniciada ao fim do século XIX com todos cursos da época em Ciências Humanas (Direito incluso) Naturais (Medicina incluso) e Tecnológicas (Engenharia incluso), tudo num mesmo edifício, que inicialmente ostentava no centro e acima uma grande abóboda: símbolo de que o conhecimento e saber, ainda sacralizados,  passavam todavia dos templos para o espaço laico das ciências em geral, a partir daquelas novas idéias republicanas.
Para que não me esconjurem precipitadamente, vamos a um pouco de história sobre as nações, povos e idiomas. Desde seus registros iniciais, como primeiro livro da humanidade, ela utiliza escrita para contar a origem do mundo conhecido presumível e real, entre tribos do Oriente Médio que deixaram o nomadismo, se assentaram em vales e construíram uma cidade sob comando de autoridades únicas com caráter organizador, defensor, educador e julgador, ou seja, um núcleo gestor bem definido, construtor de linguagem própria de crenças, de técnicas e de regras, todas elas mescladas entre si. Falamos aqui da Babilônia e de Salomão. Há dez mil anos atrás, bem antes da antiguidade clássica em Roma e no Egito imperiais, cujos apogeus vieram após o dos Persas e Gregos. Para simplificar, as palavras do Velho Testamento somam edições de documentos de quatro mil anos, mantidos mas arcas de Israel, com bricolagens gregas e egípcias de interesse a esse povo, para receber mais quatro mil anos de “atualização” com novos conteúdos, de forma só então escrita por três milênios antes de Cristo, porquanto, como no Egito e nas cavernas, parte da história era até lá só desenhada em hagadás, quase um gibi na época. Os saberes incluem muita ciência, muito pacto político legal (na forma de dogma ou crença), muita arte e notável filosofia com profundidade, coletada na interatividade sábia de judeus com várias outras culturas e conhecimentos, registrados e magistralmente resumidos, sintetizados e sistematizados por rabis no texto bíblico antes de Cristo. Para concluir este parágrafo de síntese, nossos dez milênios de civilização têm estes atuais dois milênios após Cristo e três períodos bíblicos que o antecedem, o de cidades babilônicas no oriente médio, outra de inspiração pagã e panteísta, onde filosofia e linguagem se definem com Homero entre os impérios gregos e persas, e um último de influência romana e egípcia, cuja última fronteira tenta assegurar novos conteúdos, aplicados e “inovadores’’ através do cristianismo. Essas maiores mudanças nos pactos civilizatórios, propostas pelo cristianismo, são (1 e 2)) tirar os poderes político/militar e mercantil das pautas e do espaço do templo, lugar doravante reservado à reflexão onde seriam depurados saberes como ciência, amor e arte, pois Jesus lidera a expulsão dos mercadores e define que generais fiquem nos quarteis: a Cesar o que é de Cesar. A terceira (3) mudança do projeto civilizatório é inclusão de mulheres e servos na pauta da fé e da sociedade, com a benção e a sagração de Maria, Lásaros e Madalenas.

A Bíblia, como único arquivo registrado de conhecimento, linguagem, arte e saberes da humanidade - tanto governativos como de higiene, Propaganda, tática e defesa – na Era Cristã atravessou um milênio e meio sob domínio dos rabis, sábios, conselheiros e escribas religiosos que orientavam os monarcas e reis, às vezes atrapalhando ou gerando intrigas entre os fortes que mantinham domínios e fronteiras territoriais. Os conselheiros e escribas, de muitas hierarquias na sua fé, até metade do segundo milênio da Era Cristã, já aditados mais saber de vários outros áulicos, além dos Evangelistas e Maomé, também de orientais hindus, tauistas e budistas, criaram nos templos “academias monásticas” para desenvolver e orientar habitantes de cada cidade ou reino, numa linguagem hermética, sem nunca dar ao cidadão muito mais do que dogmas em regras simples para ele trabalhar sobreviver e obedecer, lhes mantendo sem seus próprios saberes, muito menos escrita ou  leitura. Meio milênio, entre os “descobrimentos” e final do século dezenove, mudaria tudo isso, gerando estas Repúblicas Democráticas do século XX passado, último do segundo milênio após Cristo, décimo após Salomão e Nabucodonosor, quando se inauguraram as civilidades. Apesar da Inquisição, a queimar como bruxo sábios e sábias não religiosas, a prensa e a imprensa se impuseram. As escrituras se multiplicaram e ganharam versões e igrejas novas, até ética e filosofia criarem moralidade laica e menos ortodoxa. E um Novo Mundo Informacional para além dos mosteiros surgiu desde o Iluminismo na Europa. Essa transformação esboçou, desenhou e gerou, além de muito compêndios de filosofia, ciência e arte, o projeto de gestão republicana para os povos, até hoje em construção desde cem anos e pouco mais atrás. Excessos patrimonialistas, administrativos e monetários tóxicos fizeram com que a Era Republicana produzisse três guerras mundiais no século XX. Pois a última, fria e ideológica, foi tão sanguinária quanto as duas primeiras: colocou em luta os vizinhos e cidadãos de todos cantos do mundo, sob duas crenças políticas fraticidas.

O que penso dizer e colocar em debate é o seguinte: para não morrer, havemos de realinhar o projeto republicano, expurgando seus excessos o quanto antes pois a segunda Torre de Babel, depois das Escrituras Bíblicas, já chegou. E como a velha bíblia e o livro, admite muitas e diversas possibilidades, interpretações, desavenças, usos e disparates. Nossa segunda Torre de Babel nos próximos milênios é a Internet e as novas linguagens do Ciberespaço. Nada que lá postamos é, para outros, aquilo que imaginamos ser. Todos querem ser vistos e ouvidos. Mas poucos enxergarão ou escutarão aquilo dito por cada um. Pura excelência em democracia. Mas há que se banir as republicas monetaristas e patrimônios concentrados no cotidiano do mundo material. Próxima postagem aqui: só sobre Patrimônio, Meio Ambiente, Monetarismo. Lá pedirei para reler esta preparatória.         
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