Uma
passagem bastante conhecida da Bíblia é a parábola da Torre de Babel, um
projeto do povo de deus para edificar uma torre, que se aproximasse do céu, de
um modo assim que homens ficassem muito mais próximos talvez mais íntimos do
Todo Poderoso, Criador adorado dos céus das águas, da terra e do fogo sagrado. Nessa
narrativa ou passagem do livro, quanto mais a torre crescia, na direção do céu
e do Senhor, menos se entendiam os homens entre si na construção; culminando
ali o surgimento de diferentes idiomas, em tribos e nações de linguagens
diversas, condenadas a não ter um projeto conjunto ou união no entendimento da
palavra: merecido castigo pela alta pretensão à divindade.
Considerando
estudos laicos atuais de comunicação, linguística, semiologia e semiótica,
posso ponderar a Torre de Babel como sendo a passagem mais metalinguística
entre todo texto bíblico, lembrando que o Velho Testamento serve, ainda hoje,
como conhecimento metafísico aos mundos judeu, cristão e muçulmano. Como
primeiro livro sistematicamente escrito pelas civilizações, é verdadeira
coletânea de saberes e conhecimento acumulado nos primórdios da urbanidade. A
bíblia fala de si mesma nessa passagem da Torre de Babel; ela admite possibilidade
de que gerará muita tradução e interpretação sobre seus registros, talvez
podendo mesmo dividir entre si os povos, ideias e princípios que nela se entendam,
pode delinear e nutrir debate entre crenças
diferentes que nela creiam e entre pessoas que a leiam com atenção e apreciem
seus conteúdos. Essa parábola e versículos admitem cada pessoa ou tribo tendo
versão, interpretação e aplicação diversa sobre um mesmo conhecimento e saber histórico
de trecho narrativo, a partir do texto bíblico.
Para
que não me esconjurem precipitadamente, vamos a um pouco de história sobre as
nações, povos e idiomas. Desde seus registros iniciais, como primeiro livro da
humanidade, ela utiliza escrita para contar a origem do mundo conhecido presumível
e real, entre tribos do Oriente Médio que deixaram o nomadismo, se assentaram
em vales e construíram uma cidade sob comando de autoridades únicas com caráter
organizador, defensor, educador e julgador, ou seja, um núcleo gestor bem
definido, construtor de linguagem própria de crenças, de técnicas e de regras,
todas elas mescladas entre si. Falamos aqui da Babilônia e de Salomão. Há dez
mil anos atrás, bem antes da antiguidade clássica em Roma e no Egito imperiais,
cujos apogeus vieram após o dos Persas e Gregos. Para simplificar, as palavras
do Velho Testamento somam edições de documentos de quatro mil anos, mantidos mas
arcas de Israel, com bricolagens gregas e egípcias de interesse a esse povo, para
receber mais quatro mil anos de “atualização” com novos conteúdos, de forma só
então escrita por três milênios antes de Cristo, porquanto, como no Egito e nas
cavernas, parte da história era até lá só desenhada em hagadás, quase um gibi na
época. Os saberes incluem muita ciência, muito pacto político legal (na forma
de dogma ou crença), muita arte e notável filosofia com profundidade, coletada na
interatividade sábia de judeus com várias outras culturas e conhecimentos, registrados
e magistralmente resumidos, sintetizados e sistematizados por rabis no texto
bíblico antes de Cristo. Para concluir este parágrafo de síntese, nossos dez
milênios de civilização têm estes atuais dois milênios após Cristo e três
períodos bíblicos que o antecedem, o de cidades babilônicas no oriente médio, outra
de inspiração pagã e panteísta, onde filosofia e linguagem se definem com
Homero entre os impérios gregos e persas, e um último de influência romana e
egípcia, cuja última fronteira tenta assegurar novos conteúdos, aplicados e “inovadores’’
através do cristianismo. Essas maiores mudanças nos pactos civilizatórios,
propostas pelo cristianismo, são (1 e 2)) tirar os poderes político/militar e mercantil
das pautas e do espaço do templo, lugar doravante reservado à reflexão onde
seriam depurados saberes como ciência, amor e arte, pois Jesus lidera a
expulsão dos mercadores e define que generais fiquem nos quarteis: a Cesar o
que é de Cesar. A terceira (3) mudança do projeto civilizatório é inclusão de
mulheres e servos na pauta da fé e da sociedade, com a benção e a sagração de Maria,
Lásaros e Madalenas.
A
Bíblia, como único arquivo registrado de conhecimento, linguagem, arte e
saberes da humanidade - tanto governativos como de higiene, Propaganda, tática e
defesa – na Era Cristã atravessou um milênio e meio sob domínio dos rabis, sábios,
conselheiros e escribas religiosos que orientavam os monarcas e reis, às vezes
atrapalhando ou gerando intrigas entre os fortes que mantinham domínios e
fronteiras territoriais. Os conselheiros e escribas, de muitas hierarquias na
sua fé, até metade do segundo milênio da Era Cristã, já aditados mais saber de
vários outros áulicos, além dos Evangelistas e Maomé, também de orientais
hindus, tauistas e budistas, criaram nos templos “academias monásticas” para desenvolver
e orientar habitantes de cada cidade ou reino, numa linguagem hermética, sem
nunca dar ao cidadão muito mais do que dogmas em regras simples para ele
trabalhar sobreviver e obedecer, lhes mantendo sem seus próprios saberes, muito
menos escrita ou leitura. Meio milênio, entre
os “descobrimentos” e final do século dezenove, mudaria tudo isso, gerando
estas Repúblicas Democráticas do século XX passado, último do segundo milênio após Cristo, décimo após Salomão
e Nabucodonosor, quando se inauguraram as civilidades. Apesar da
Inquisição, a queimar como bruxo sábios e sábias não religiosas, a prensa e a imprensa
se impuseram. As escrituras se multiplicaram e ganharam versões e igrejas
novas, até ética e filosofia criarem moralidade laica e menos ortodoxa. E um
Novo Mundo Informacional para além dos mosteiros surgiu desde o Iluminismo na Europa.
Essa transformação esboçou, desenhou e gerou, além de muito compêndios de
filosofia, ciência e arte, o projeto de gestão republicana para os povos, até
hoje em construção desde cem anos e pouco mais atrás. Excessos patrimonialistas,
administrativos e monetários tóxicos fizeram com que a Era Republicana produzisse
três guerras mundiais no século XX. Pois a última, fria e ideológica, foi tão
sanguinária quanto as duas primeiras: colocou em luta os vizinhos e cidadãos de
todos cantos do mundo, sob duas crenças políticas fraticidas.
O
que penso dizer e colocar em debate é o seguinte: para não morrer, havemos de realinhar
o projeto republicano, expurgando seus excessos o quanto antes pois a segunda Torre de Babel, depois das
Escrituras Bíblicas, já chegou. E como a velha bíblia e o livro, admite
muitas e diversas possibilidades, interpretações, desavenças, usos e disparates.
Nossa segunda Torre de Babel nos próximos
milênios é a Internet e as novas linguagens do Ciberespaço. Nada que lá postamos
é, para outros, aquilo que imaginamos ser. Todos querem ser vistos e ouvidos. Mas
poucos enxergarão ou escutarão aquilo dito por cada um. Pura excelência em
democracia. Mas há que se banir as republicas monetaristas e patrimônios concentrados
no cotidiano do mundo material. Próxima postagem aqui: só sobre Patrimônio, Meio
Ambiente, Monetarismo. Lá pedirei para reler esta preparatória.
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