Andei
por aqui falando da enorme e recente transformação havida na sociedade urbana, em
razão do espaço cibernético, sob a atual tecnologia da informação e da comunicação,
através de redes sociais e de artefatos móveis de conexão, de interatividades
várias, que redefiniram há pouco as rotinas do cidadão, como por exemplos pagar
contas “on line” e, nesse mesmo canal, obter ou perder afetos, amigos, clientes
ou conhecidos. São centenas as postagens novas, acessadas diariamente. Elas atingem
a cidadania e criam crescente miscigenação hoje, entre as visões pessoais e até
mesmo entre amplas culturas coletivas tradicionais, mudando com grande
velocidade e voracidade muitos conceitos e palavras. Tive audácia em associar
isso a uma segunda Torre de Babel na história das civilizações (vida humana em
cidades), entendendo que a primeira é, no meu raciocínio, a edição, a pregação
e a disseminação dos conhecimentos através da Bíblia, determinantes, por dez
mil ano atrás, para organizar e aglomerar a vida humana nas localidades, ali como
lugares de maior desenvolvimento de linguagem e inteligência humana, por
consequência. Essas duas “técnicas” são plataformas informacionais que geram e geraram
flexível ambiente de transformação linguística, de encontro e também
desencontros (vide Sodoma e Gomorra), para redefinição de comportamentos e na
ressignificação dos símbolos. Nas postagens anteriores nesse tema, destaquei
ser o Iluminismo um importante marco inicial para esta atual modernidade,
período quando saberes se tornaram conhecimento laico e se libertam da velha Inquisição.
Desde lá são geradas as primeiras ideias racionais e sem mistificação, por
meros valores éticos ou científicos e sem fanatismos, inclusive para esta gestão
pública colegiada nas cidades e civilizações, evoluindo até um projeto
republicano lá no século XIX, com democracia mais horizontal e inclusiva, sem
mais aquela de servos ou mulheres não darem qualquer palpite. Comentarei agora
sobre o momento humano de hoje, pouco mais de um século depois, com seus principais
desafios: uma nova depuração a se fazer, que assegure mais dez mil anos usando um
mínimo dessas recentes e novas inteligências modernas sobre civilidades humanas,
buscando ordens mais avançadas e justas para esses podres poderes republicanos,
que consolidem a resiliência do planeta Terra.
Na mesma linha de reflexão e raciocínio, usarei este nosso segundo parágrafo para dar três campos exemplares de rápida e de recente mudança nos significados de algumas palavras ou termos, que ainda são usuais na língua portuguesa, como falada no Brasil. Substantivos 1 Irmão ou Mano deixaram de ser parentesco para significar afinidade ou empatia 2 Responsabilidade Social deixou de ser compromisso da produção com os seus consumidores e trabalhadores para ser caridade eventual ou tributária 3 Anarquismo deixou de ser a filosofia de autogestão social que reduz autoridade dos governos para ser simplesmente baderna Adjetivos 1 Liberalismo deixou de ser modelo legal que estimula a auto gestão produtiva para significar descompromisso da produção com leis e fiscalização pública de produtos ou impactos 2 Capitalismo deixou de ser sistema compartilhado e provedor de recursos voltados à produção para significar acumulação monetária pessoal de acionistas e livre especulação sobre rendimentos futuros 3 Comunismo deixou de ser forma capilar de trabalhador e povo legitimarem e vigiarem seus governos para ser um modo Stalinista de repressão ditatorial Verbos 1 “amar” deixou de ser forma elevada de afeto para ser desejo ou sonho de posse física de objeto ou outrem 2 “ficar” deixou de ser o ato de permanecer ou consolidar situação para significar mudança em status individual ou no grau de intimidade física entre duas pessoas 3 “planejar” deixou de ser um processo para programar passo a passo mudanças eficientes, eficazes e efetivas; significando hoje explicitar desejos, sonhos e vontades quaisquer para dar início a atitudes voluntariosas. Todas essas alterações vem ocorrendo de forma acelerada, a ponto de exigir que se pense muito em qual palavra usar numa ideia, de modo a sermos enfim de fato compreendidos.
Então
perguntamos: as formas laicas e sem fanatismos religiosos ou fé política, elaboradas
em torno do século XIX até metade do XX, não ofertaram princípios sólidos para
consolidar a Idade Moderna e as Repúblicas Democráticas no mundo, cujos
símbolos e conceitos ora estão a ruir, como castelo de cartas, com esses
governantes, legisladores e juízes da nova atualidade? No meu ponto de vista, tais
avanços científicos e conceituais, nessa evolução, estiveram e continuam hoje disponíveis,
mas eles nunca foram suficientemente difundidos a segmentos populares, em
linguagem direta e simples, como se fazem folhetins, cordéis e publicidades. A ciência
se elitizou nas academias, nos moldes dos velhos monastérios com suas
escrituras e alianças espúrias, frente a guerreiros ou outros detentores
monárquicos de poder. Tanto é assim que, novamente, os templos vêm se
multiplicando nas cidades, na adoração do velho dogma, sob pastoreio
oportunista de pregadores e obtusos fundadores de congregações, na indústria inescrupulosa
da fé sobre a ingenuidade das massas.
Uma
das principais bases da modernidade vem do modelo tríptico de pensamento, o qual
rompeu com dualidades entre bem e mal,
positivo e negativo, capitalismo e comunismo (na política) ou anjos e demônios, nas demais
picaretagens dogmáticas e semânticas de pregação. A revolução francesa inseriu
três lemas e o primeiro filósofo de viés linguista, o cientista Charles Peirce
(1839-1914), fundador da Semiótica, inseriu necessidade de um terceiro ângulo de análise para dar
efetividade ao conhecimento, legando novos axiomas a estudiosos que o seguiram
nessa época. Se triângulos e terceiridades se faziam presente já na estrela do
Rei Davi hebraica e na Santíssima Trindade cristã, a moral religiosa os havia
reduzido à dicotomia Caim e Abel, representada por Steinbeck na novela Leste do
Eden (vejam no filme Vidas Amargas) ou na velha visão complementar do Sião para
os princípios duais interdependentes in e yang. Essa republicana ruptura ao pensamento dogmático e dual avançou
para arte, ciência e filosofia até se estruturar a Era Republicana. Essa porém
ainda não se consolidou: lhe falta consenso
sistêmico quanto aos meios de gestão, o que se manteve no século XX como
matéria a consolidar para urbanistas e legisladores do novo tempo, sobretudo para
pensadores e cientistas do progresso em sociedade, como Antônio Gramsci (1891-1937),
Alain Touraine (1925 - ...) ou Michel Foucault (1926-1984), também para Marshall
McLuhan (1911-1980) e Umberto Eco nos estudos de linguagem, seguindo ao fim do
milênio com Deleuze e Manuel Castells (1942-...), entre outros, que buscam ver novo
e liberto destino, sólido ou insólito, para a nova e recente sociedade
informacional.
Entre
o final do século passado e este início de Terceiro Milênio, esta nova
tecnologia nos apresentou com clareza a finitude
e vulnerabilidade deste ambiente planetário, trazendo leitura real de
sustentabilidade sobre o lindo corpo celeste em que vivemos, a Terra, hoje
muito mais visível e fácil de ser observada em cada canto, através do serviço
Google Earth. Há dez megacidades concentradas (ou quinze se incluirmos tecidos
urbanos descontínuos como o da Califórnia) que definem de fato os principais
rumos econômicos e da cultura no mundo. Há em todos lugares habitados, problemas
com mobilidade, serviços de limpeza e de equilíbrio sanitário, saúde, segurança
e clima para vida civilizada em cada cidade. Todos desafios atuais ganham, a
cada dia, acurado receituário para prevenção e disciplinamento em atividades e
rotinas, tanto as sociais como econômicas. A pandemia de hoje, centrada na
prevenção e combate ao Covid-19 ou Corona Vírus, é primeiro sinal de alerta,
apontado por Touraine, no alto de seus 95 anos de idade, como um risco à
democracia. Nunca se fez tão urgente reconfigurar o velho projeto republicano e
democrático de Estados, enquanto centros de decisão pública que, com base na
ciência e no conhecimento, informe e eduque as comunidades locais para saúde,
vida e amor, sem qualquer prejuízo ao livre arbítrio das individualidades como
princípio basilar da liberdade.
Para quem teve a paciência de ler este texto até aqui, só agora entenderá seu título. Nossa reflexão de hoje é a seguinte: precisamos avançar sempre nesse caminho civilizatório, em que a humanidade se fez humana e diferenciada de outros seres vivos e animais do planeta. E assim devemos sempre ajustar toda nossa conduta pessoal e social. Vamos examinar valores de decisão interna e individual e aqueles que nos movem entre os relacionamentos em geral. Mas fujamos da FANTASIA dual, tipo certo ou errado daquela civilidade fanática de antes da Era Republicana. Como seres modernos e evolutivos, analisemos três ângulos em cada setor, não mais bom ou mau e favorável ou não entre nossos interesses e preocupações, sejam imediatas ou cotidianas. No âmbito pessoal, examinemos três olhares, 1. Fé, nos valores ou crenças que nos movem, 2 Leis e normas que nos orientam e definem os atos e rotinas legais, não prejudiciais à vidas e 3 Cultura e hábitos repetitivos que nos atraem e conduzem em inteiração prazerosa com outros e o mundo. Faça esse autoexame que sugeri aqui e, assim, conheça seu espaço interno e pessoal. Agora pode se situar em seu espaço externo e social no planeta, onde necessariamente você considerará as relações humanas e ambiente que lhe são mais razoáveis, interessantes e, quem sabe, as necessárias ou imprescindíveis para você. Contemple três dimensões diversas, com sinceridade novamente e sob esses três olhares: 1 aquele sagrado do seu próprio corpo como matéria que merece trato e saúde, como sua fonte perceptiva de prazer, aprendizado ou dor; 2 aquele do domicílio. o compartilhado com amigos íntimos ou restrito a parentes e grupos ligados no seu cotidiano imediato, tendo as dimensões da casa, bairro ou local de ida e de volta frequente, como trabalho ou local permanente para se distrair ou divertir; examine por fim 3 todas instituições estabelecidas onde se insere, com ou sem amigos, e que agregam desconhecidos, indivíduos e seres vivos outros, tais como torcidas, clubes, igrejas, movimentos políticos ou culturais, as campanhas com bandeiras ou palavras de ordem, no exercício coletivo de cidadão.
Creio que a maioria de nós terá maior dificuldade em definir e dimensionar esse espaço de externalidade intermediário, que se relaciona ao domicílio rotineiro. Recentemente nosso corpo vem se habituando a ter mais intimidade com a grande multidão da danceteria ou da torcida, no estádio, do que com os vizinhos e os que conosco coabitam, no mesmo condomínio e espaço residencial. Isso porque estamos com uma massa de de gente conectada afetivamente por redes de comunicação eletrônica. E também porque fizemos de nossos corpos algo mais experimental, que admite “ficar” com alguém intimamente para, só depois, avaliar se vale ou não permanecer um tempo e se relacionar afetivamente e efetivamente com essa pessoa, a tornando uma real amiga ou mesmo a amando. Todavia a pandemia do corona vírus vem, hoje, devolvendo todos nós para nossa antiga dimensão intermediária, de sociabilidade domiciliar Ela impõe maior distanciamento social e confinamento para salvar nossas vidas. Portanto, ela nos leva novamente para o espaço domiciliar da casa. E ao convívio dos parentes, de vizinhos e junto aos comércios e serviços mais próximos. Prepare já, portanto, esse seu coração de melão. Pois pandemias e epidemias virão. E poderão nos trazer de volta ao amor. Pois em certo sentido nos tiram dessa bipolaridade dual entre solidão e multidão. E nos devolverão para certas delícias ou desafios de um oceano afetivo e amoroso mais profundo, quiçá mais respeitoso, mais criativo e bem mais prazeroso. Bora pessoal ! ... de Tanatos a Eros já !




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