Todo
mundo sabe que a vida começou nos mares. E que depois foi evoluindo em terra.
Os animais viveram muitas eras até chegar neste bicho homem que somos. Gosto de
pensar nas pessoas como macacos-formiga. Diferentes do macaco-aranha, nos
aglomeramos na cidade, andamos mesmas trilhas num só trajeto, resistentes e
predadores, nas metrópoles onde disputamos ou compartilhamos farelos entre nós.
Quando os bichos saíram da água, as barbatanas dianteiras se transformaram em
hábeis membros dianteiros para uns ou em asas para outros. Uns poucos mamíferos
ficaram no oceano ou foram voar, mas a maioria veio para a terra seca onde
exploram minerais e vegetais bem como uns aos outros, para viver. Dos bichos
que ficaram em terra, somente nosso macaco-formiga se sofisticou e criou
assessórios para se aventurar também nas águas e nos ares. E isso permite
analogias de nossos estilos com temperamentos ou hábitos de outros bichos, tanto
marinhos como os demais terrestres e voadores. Fulano é um peixe ensaboado,
Sicrano é um gavião. Um outro é um pato. E nessas toadas, gosto muito mais das
metáforas com aves especiais, sem incluir
mamíferos que voam e insetos ou o peixe borboleta. Pois há duas célebres metáforas
de beleza nas analogias com aves: a história do Patinho Feio e o balé do Cisne
Negro. São narrativas marcantes de infância e juventude, bem mais que
fantasiosos super-heróis voadores.
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| Embarque para o Parque Nacional do Superagui, em Paranaguá-PR |
Pois
quando fui me profissionalizar como arquiteto e urbanista, pela rapidez no
traço e na análise dos desafios, me atribuíram as honras de ser uma águia. Demorei a me dar conta de que os
outros estavam equivocados, a um ponto de eu próprio me iludir. Foi quando
entreguei meu coração a uma harpia,
prestes a me graduar. Apaixonadíssimo, a ela entreguei minha alma e corpo até que noivou e casou com outro homem, de voos bem mais altos que os meus, em todos
sentidos. Daí em diante passei a atentar mais ao mundo afetivo e libidinoso do que para sucesso e desempenho profissional. Com fama de gavião, jamais acreditei na alcunha, já que nunca entendi sexo sem
amor. Na medida em que fui galgando vida profissional, insistiam me tratar como
ágil e certeira ave de rapina. Porém
eu só agradava aos meus clientes da época, empresários e catedráticos: respectivamente
na economia de mercado e universidade; compreendi, então, ser eu um papagaio de pirata naquelas reuniões, tarefas,
escritórios e plataformas de trabalho. Isso me inseriu no ramo das aves trepadoras, cientificamente
denominadas como psitacídeos. Foi um
passo definitivo, bateu finalmente com meu perfil monogâmico: essa entrega, uma
intensidade arrulhante e barulhenta no amor, rotina sossegada de pássaro trepador enfim, apesar do nome.
Nos meus voos seguintes, então, entre arvoredos já definidos vivi toda década de 1970,
período que fez uma linha reta no meu destino até o final do século XX: nos
anos setenta me uni por duas vezes sucessivamente a duas aves trepadoras como eu.
Com cada uma delas choquei três ovos com muito amor. Porém tanto uma como
outra eram araras de longos voos e
pouco ninho, ou seja, quase nenhum cafuné, elas com cabeças sempre noutro sonho distante; a arara azul focando passado, a vermelho-amarela mirando
futuro.
Depois
desses casamentos, em que morri ao final de cada um com filhotes levados para
longe, eu sobrevivi a duas atentas psicoterapias após cada desastre. Virei então Servidor Público como meu pai e avôs, sem ficar no ombro de nenhum corsário e atendendo a todos os cidadãos Então, a
seguir, vivi outros três tipos de ninhos, durante mais três década, sempre como papagaio porém livre dos piratas. O
primeiro desses tipos, foi empoleirado com legítimas papagaias como eu. Ali dei palpites em suas crias até que me mandassem ir cuidar
dos meus próprios seis ararinhas
desterrados. Mal ou bem, boas trepadoras essas foram, como também eram
ótimas e atentas mães, tanto assim que mantem comigo certa amizade até hoje, ainda que distantes.
No segundo período pós divórcios, vivi intensos romances com certas inquietas caturritas e no último e terceiro com duas periquitas do barulho, essas sem qualquer parceria possível nem objetivos em
comum comigo, a não ser muito sexo sem qualquer projeto ou entendimento sequer. A
décima união - a quarta que foi formalizada - veio somente de um namoro em 2015. É esta minha
esposa Talitha, ela uma verdadeira calopsita;
basta que erga sua crista e eu logo alinho todos os cafunés, sons, silêncios e
afagos que se façam necessários ... Espero que assim permaneça por omnia
séculae seculorum
.



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