Tenho comparecido a este espaço cada vez mais raramente nos últimos anos. Bem que tentei, entre 2015 e meados de 2017, manter e organizar por aqui o andamento dos meus pensares e sentires. Sou um cidadão de sonhos e utopias: vivi minha juventude nos anos 60 e 70 do século passado, quando a gente acreditava em construir - verbo a verbo, passo a passo, verso a verso e traço a traço - uma nova era no porvir, de muita paz e muito amor . Calei a voz aos poucos, depois de 2015. Foi quando ruíram as últimas esperanças trazidas desse sonho juvenil. Todos objetivos de justiça, paz, coletiva civilidade e respeito às diversidades e ao livre arbítrio dos indivíduos, que havíamos construído e passávamos a filhos ou amigos da nova geração, foram se tornando cada vez mais distantes: mesmo se pactuados no mundo, sob a égide do Desenvolvimento Sustentável e dos Direitos Humanos Fundamentais.
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| Pelas ruas de Verona, na primavera deste ano no Velho Mundo |
Na realidade, cansei de ver família, comunidade, bairro e mundo divididos em facções opostas, a seguir uma bandeira, uma palavra de ordem, uma ideia qualquer ou outro velho estereótipo qualquer de ideal, que sempre é plantado por calhordas instituições, hoje geralmente nos campos da economia, de governos e das redes sociais, com seus novos instrumentos de manipulação sobre a cultura social humana. Há que se começar de novo. Poetas bêbados e equilibristas desse mundo, como menestréis de outrora, reiniciar o bom combate a essas calhordices das instituições imperiais. Nelas se inserem ainda organizações de estatutos também acadêmicos, religiosos, esportivos e culturais, tantas delas infelizmente com atitude fundamentalista, infladas por novas panacéias para as vicissitudes do mundo. São muitas corporações e instituições, de vertente calhorda e oportunista, hoje instrumentadas pela tecnologia da informação. A ponto de se ver uma sociedade urbana moderna se movendo como zumbi em direção a mitos e não mais à qualidade de vida, no seu momento cotidiano, em torno à própria bolha individual e peculiar, e à pessoa ou vizinho que esteja ao lado, no seu espaço habitual. Chega de corpo aqui e a cabeça longe. Corpo exige realidade cotidiana, toque, som, odor, língua, voz e carinho.
Os mitos do "salvador paladino da pátria" ou do "ameaçador destruidor da pátria" não são realidade e só existem no campo da ignorância humana. Porém, eles persistem no imaginário das pessoas e são explorados por políticas calhordas de dominação sobre as massas. Porque a sociedade urbana atual é vulnerável, ainda, a acreditar nesses mitos? Seria para justificar toda ou qualquer ação de insensatez sua que, sem esse mito para explicar os motivos, poderia ser considerada por seus semelhantes como cruel, insana ou politicamente incorreta? Vergonha de abrir a janela e gritar a insatisfação ao mundo, mesmo que sua revolta não saiba ao certo de onde vem tal insatisfação a lhe roer alma ou ventre? Há na raiz de tanta ansiedade e tristeza, sabemos todos, muitas e várias naturezas e gêneros de faltas e de carências, sejam de alimento, bens materiais e carinho de afetividade mais intensa. Na adoração do mito, a guilhotinar inimigos ou a erigir tronos para justiceiros, as faltas e as carências se catalizam.
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| Nossa homenagem a Amália Rodrigues, nas ladeiras de Alfama, em Lisboa |
Aos menestréis da nova era e aos seus cantares peço que se insinuem nas redes sociais. E que sempre possam aprender a fugir de todo mito, sobretudo sendo alguns deles seus amigos, ou seu ídolos ou até aquela celebridade adormecida dentro do seu próprio ego. Há que cantar novamente vida e infância e quem sabe pássaros folhas e aragens. Trazer o mundo à realidade e à magia do cotidiano: de coisas ali muito próximas da gente e do mais humilde e gentil gentio. Aos arautos da nova era, há que se evitar multidões: todo diálogo é possível entre olhares e sorrisos, no grupo, na rua e nos quintais de pequena platéia. Paz é imprescindível, dentro e fora de vocês, menestréis e arautos da nova era. Evitem toda e qualquer doutrina pronta. Construa com seus interlocutores o roteiro e a trilha para o próximo passo, encontro ou eventuais laços. Há também, não esqueçam, de discutir frustrações de uns e de todos nós. Desatando cada uma delas como nós. Pois se acabou: está em colapso essa era, em que se prometia a felicidade, a cada compra e a cada carnê de crediário. E é dali que nos vem essa vontade de rebelião. Como ilusta o diagrama abaixo, quando ansiosos se unem a seus motivos, ganham em poder político. É simples assim: ideologias esquerda ou direita é explicação do século XX para alianças esquizóides.
Para finalizar, creio que falta uma informação pessoal minha: me retiro deste blog, pelo menos neste formato atual. Por um certo tempo me dedicarei a um projeto editorial. Ele nasce nesta linha, que aqui proponho para menestréis e arautos. Ao final e se for possível, será editado e se traduzirá, como se fossem sementes germinais, em vinte e três livretos, todos eles escritos e ilustrados numa dimensão calcada nas estórias de cordel nordestinas ou nos breves causos gauchescos, entre versos e reversos crioulos, ao ritmo das milongas e dos xaxados. Serão livros leves livres livros, um projeto editorial desde a Oficina "Poética do Corpo", essa com duração de um ano (ainda em andamento) e orientada pela colega e ativista cultural Nicole Lima, na Galeria Ponto de Fuga, em Curitiba.
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| Talitha e eu, duas semanas de páscoa e primavera no Velho Mundo: tudo igual àqui, na desconstrução republicana e nessas neomitologias massificadas. |




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