AMOR e LIBERDADE: armas e armadilhas

Antes de mais nada, posto novamente a experiência de expressão corporal que tive, entre 2012 e 2015. Foi inspirada nas práticas do Butoh, pela escola de Kazuo Ohno. E trazida até nós através da coreógrafa Ana Medeiros. Um aprendizado intenso: vivências sobre o silêncio no som, a estática no movimento e o eterno morrer ou nascer em vida, com todos demais versos, reversos e avessos dos nossos corpos individuais, nesse coletivo do grupo e esmagado sob a impermanência do tempo: essa inesquecível passagem da minha vida flagrada aí abaixo, nessa foto, faltando outros integrantes. Meu texto aqui no blog é assim como é, em parte devido ao que nós todos vivemos juntos nessa época, breve período na minha existência, sobre uma visão de vida diretamente criada do ponto de vista dos derrotados, às sombras do desastre atômico sobre Hiroshima e Nagasaki.    
  
Falei antes, em muitas postagens deste blog, sobre coragem e medo, sobre mulher e amor, covardias e audácias para vencer temores e amar com a verdade. Tentei, sobretudo, falar de heranças político-cultural ou metafísicas, maus valores que vêm influindo nos tecidos da sociedade humana, atualmente urbana. Persiste certo apego ancestral a padrões e mitos que, como o machismo, ainda nos freiam. E tornam nossa caminhada muito mais pesada do que deveria ser. Assim, apesar de tantos avanços em tecnologias, a existência ainda não se fez suficientemente mais leve, ainda hoje, para o cotidiano de cada cidadão vivente e, muitos menos, para animais e vegetais, vida a correr nos espaços do planeta.

Seres humanos são a única espécime que usa razão e conceitos complexos, para livremente se decidir por uma trilha, caminho, destino ou suas formas de comportamento. É o que se chama de Livre Arbítrio nas culturas religiosas; Liberdade com Democracia nas políticas republicanas. Há até samba que fala em se ter lá suas razões para se dar fim ao amor. A música se refere a romance entre duas pessoas, mas bem que poderia pensar  também amor coletivo, ao clube, à comunidade, a grupo, concidadãos e assim por adiante. Nega a relação com sentimentos reprimidos ou represados por iniciativa de um só dos lados. É inequívoca e de domínio popular a afirmativa de que, sem liberdade, o amor acaba e se esvai, tanto no que se faz sob arbítrio individual, de cada ser humano, quanto na sua escolha democrática em grupo, para uma tendência qualquer ou pacto, seja na direção de um modelo governativo, administrativo ou de uma linha de produtos, tendências em artes ou saberes, simplesmente para consumo social. O direito à escolha e a mudar seus caminhos ou o teor nas suas formas de viver é inerente à espécie.

Assim é que, nesta virada de ano e neste mês de mudanças, insisto com o tema de que devemos encerrar, ainda no terceiro milênio da Era Cristã (para alguns precedida pela lenda de Horus), todos os paternalismos em geral e todos os machismos em particular. Eles vêm ainda conduzindo muito mal este mundo. Há que os entender como matrizes mitológicas nefastas, que servem para dominação de indivíduos sobre outros de sua mesma espécie; isso em razão de uns deterem uma e outra diferença ou competência biológica de DNA, de gênero ou nas suas técnicas para caçar ou produzir. Insisto nessa linha, como única escolha para ampliar e consolidar plenas garantias à Liberdade, essa enquanto condição humana fundamental, fazendo com que essa tal liberdade, por fim e  de fato, abra as asas sobre nós. Para tanto, renovo meus entendimentos e minha profissão de fé no sentido de que liberdade e amor são coisas indissociáveis: que sejam destemidos e sem mais medos ou temores. Que se espraiem sobre pessoas e comunidades, grupos e tantos organismos diversos e cotidianos, de cada um e entre todos os nossos tecidos e tecituras culturais, como condição da natureza humana, enquanto espécie.

Na sequência dos testemunhos pessoais que confidenciei na postagem anterior (novembro), e de momento com olhar mais atento, reconheço que, na grave questão do amor da mulher e do medo, há muitas armas e armadilhas. Muito mais comum que o evidente e endêmico medo da violência, por parte da pessoa que é subjugada ou submetida de forma permanente à dominação de outro sobre si, há medo contrário e inverso de ser livre e agir de forma soberana, ou seja, o temor de ser de fato e enfim responsável por si mesmo e por todos e quaisquer resultados dos seus próprios atos. Pois viver sem estar sob uma tirania a que se possa culpabilizar parece muito ameaçador. Essa sociopatia reflete aquilo que se atribui, para situação particular, o nome Síndrome de Estocolmo. Ou seja, muito mais ocorrente parece ser o medo de voar, de ser dona ou dono de próprio nariz, sob as asas da liberdade e da livre capacidade de escolher o que e a quem se amar. Vivi constrangedoras situações por vinte anos, nesse sentido, por não cumprir funções ou atrocidades de macho dominante. Ou então de que, na forma invertida, teria obrigação de viver o velho papel submisso-leal tido para fêmeas, aceitando das companheiras "modernas" toda a macheza e cafajestice caçadora, típica de velhos homens outrora, na mitológica condição a que se atribuíam: de serem livres com exclusividade, quanto a compromissos ou amarras quaisquer de ordem afetiva ou sexual. Essa natureza libertina da liberdade era a face alegre de mais uma das prisões do machismo, malandragem imposta ao filho varão: dever de se manter alheio a compromissos pactuados, exercer o papel do forte e do insensível predador, sem jamais desenvolver qualquer natural apego ao ninho do cotidiano e do amor; ou à libido caseira, mesmo que essa se mostrasse sempre crescente e criativa, como expressão da próprio vivência partilhada, muito mais salivada e mutante, a cada toque ou poro.

Então, há que se compreender melhor todos essas culturas ou costumes enraizados, suas armadilhas e armas, utilizadas por muitos milênios, nas figuras estereotipadas de arquétipos ainda existentes, por detrás dessas linguagens e neologias a respeito do amor, desenvolvidos através de uma mitologia que nos persegue e nos afunda em culpas, desencontros e descaminhos. A condição humana pode e deve ser superior ao mero, peculiar e diverso caráter da biologia orgânica em cada corpo: no seu, no meu e de cada indivíduo. Discussões de gênero tem sido desrespeitosas em relação à condição humana, ao insistirem em catalogações. E não adianta que isso se restrinja a modos de sexualidade ou de libido, pois eles são variações que se referem aos atos de desejo e atração corporal, os quais mudam não só de um para outros ser vivo, como também no mesmo indivíduo ou entre os mesmos amantes de uma dia para outro, ou de um momento para outro. Abaixo meu desenho para os temas: meninas e "o lar"

Vamos, então, combinar algumas coisas para este terceiro milênio da Era Cristã? Tendo por objetivo o bem da nossa própria condição humana? Se hoje já distinguimos a atração e o desejo como simples opção de "ficar" ou não "ficar" com alguém numa festa, podemos, por outro lado, tranquilamente também estabelecer que amor nada tem a ver com isso. Pois amor presume permanecer com outro ou outros. E, portanto, não simplesmente "ficar". Ou seja, a leveza do amor estabelece compromisso por parte de cada um de nós para com outrem: certa solidariedade humana mínima, que nos impede de se evadir ou desaparecer em seguida ou a qualquer tempo, sem que ocorra, ao menos, certo consenso: o tempo de se iniciar, de se pactuar caminho a compartilhar e de se desfazer, gentil conjuntamente, a trilha que se está percorrendo, seja ela breve ou longa. Ela define um tempo respeitoso e real; exige que se decida e faça juntos, no mesmo movimento, tanto enlace como eventual desenlace. 
Sobre isso e entendendo como determinante a condição feminina, como condição matricial para boas mudanças ou como geradora e educadora primeira do ser humano, vejamos dois sólidos símbolos ainda vigentes da feminilidade: a estrela pertence ao mundo real e tem sorriso leve e solto porque não tem amarras, no entanto é notoriamente submissa como objeto do desejo machista. Já de outro lado há toda a dubiedade da rainha mãe, nesta obra de arte com imagem já fundida à madrasta (Branca de Neve e Cisne Branco): ela manipula o futuro desde a vida da sua filha, tem punhal do filho varão ou caçador e seu coração eventualmente posa de sagrado; sua pureza e beleza são irreais sob o manto da  maternidade, que é encastelada no lar e na imagem espelhada, envolta em mistérios e magias só dela, figura lendária indecifrável a nós impingida em cada geração há muito, por todas religiões e demais organizações machistas e paternalistas, sempre sob variadas formas pregadoras de bons costumes. 

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