A MULHER, O AMOR E O MEDO

Como foi comentado neste espaço mês passado, se alguma mudança estrutural efetivamente vier acontecer, na vida urbana e na existência cívica das gestões coletivas - estatais ou privadas -, essa transformação irá decorrer, durante este terceiro milênio da Era Cristã, por uma mudança, tanto de atitude como de comportamento, devida às mulheres. E tais transformações humanas só poderão ocorrer, possivelmente, devido a alterações profundas que venham, mesmo de forma vagarosa, ser consolidadas bem ali, no modo de ser feminino, delas as mulheres, desde o âmago das suas almas e da sua generosidade. O avanço preliminar evangelizador que citei, durante o primeiro milênio da Era Cristã, foi sepultado no segundo. Isso com a queda de Bizâncio e da sua inteligência. À concentração do poder desde as espadas de cruzados e templários se seguiram Inquisições, Ciência multiplicada e voltada a Repúblicas Ideologizadas e Guerras Mundiais: quentes e mais tarde frias. Muitas mudanças realizadas para nada mudar, com apropriação globalizada de todos saberes: conhecimento planetário de forma colonizada, que foram se somando sempre para concentrar poder, ainda imperial e machista. A hierarquia feudal substituída pela hierarquia cartorial burguesa da propriedade sobre terra, espaços, seres humanos e seus saberes, subjugados, espoliados e embalados para consumo no mercado. Até se chegar a este tempo ora iniciado, do terceiro milênio. Sem consulta a poetas, artistas e às boas almas.

Explico de antemão: arrisco a falar assim, com familiaridade sobre a alma feminina, porque tive uma mãe e duas avós maravilhosas e soberanas, a quem sempre admirei. Mais ainda: tive enorme privilégio de compartilhar sete  vidas e seis mortes conjugais, em quatro casamentos e três relações amorosas intermediárias. Afirmo hoje que essas sete mulheres foram tão maravilhosas e soberanas na minha vida quanto minha mãe e minhas avós, a seus tempos. Como se vê, não contei aqui dois outros enlaces intermitentes entre essas sete relações sob mesmo teto. Dentre elas, este meu quarto e doce casamento atual, hoje em curso, e que é recente. Dele muito me orgulho. Espero seja o último, de fato e de direito. No entanto, se ouso lhes falar a respeito de mulheres, devo isso também a minhas amigas ou parentes.Sempre me irmanei com incansáveis criaturas do "sexo feminino" que me aturam até hoje, em meus passos e descompassos, nesta minha tosca vida de macho que possui já quinze descendentes. Por eles, filhos e netos, fica atestada nossa plena opção pela diversidades: amor nosso irrestrito, em atos e fatos que nos uniram e nos afastam. E marcam, ao longo de toda e cada vida. Respeitosamente. Essas nove únicas mulheres, com quem compartilhei intimidades por muitos anos, me fazem acreditar que hoje posso falar da "condição feminina" sem errar muito. Porquanto Sigmund Freud desenvolveu toda sua teoria, ainda hoje em vigor, assim: a partir do diálogo profundo junto a poucos dos seus pacientes.
Penso que enquanto o homem, ao longo da história humana, venceu seu medo através da violência, ampliando assim em duplo sentido as suas covardias, a mulher, pelo natural destino de conceber e a obstinada missão de manter vivas as vidas - a sua e das crias -, caminhou em um sentido bem inverso, promovendo paz e segurança, de forma  solidária com outras mulheres ou com seres frágeis, assim como galináceos, pequenos mamíferos e lebres por exemplo. Isso se deu sempre a partir dos seus ninhos e tocas, onde um mínimo de condição haveria de sobrevivência. A mulher sempre dependeu dessa forma de amar ao seu próximo, no seu refúgio. E sobretudo de ser amada pelo caçador ou explorador que, lá de fora, trouxesse fruto, raiz e alimento para sua caverna, mesmo que fosse  homem covarde da guerra que, novamente, lhe povoaria o ventre com sua semente. De qualquer forma, os antigos documentos da civilidade se referem à mulher como aquela que fez uso do livre arbítrio, ao decidir sobre o Bem e o Mal. Ela morde o fruto proibido e, em certo sentido, toma o destino e a condição humana nas suas próprias mãos, não mais a deixando por conta do instinto animal ou do Além. O ninho da mulher a faz de tudo soberana: pela concepção, pela convivência com outros seres e com a natureza, situadas em seu próprio território de preservação. Ao qual viria se apegar, em simbiose mágica e encantada de alma. Esse feitiço da soberania feminina - Rainhas de Sabá e Cleópatras - é ele que urbanizou sítios e erige cidades, em cada continente do planeta. Espaços sempre atacados e invadidos por nômades, bandidos e bárbaros,  na busca dos tesouros, de riquezas e de seguranças. Valores que nunca chegarão a encontrar sob os escombros dessas guerras. Pois a alma dessa beleza está na paz e no trono da cidade, com seus sítios e jardins, nos assentamentos coletivos humanos e solidários, abrigados no âmago de cada alcova, no silêncio e no vazio de sombras e luzes vadias, sob cada teto, na mesa e na cama, no regaço, no seio e no fundo da alma, em cada mulher.
Neste terceiro milênio, o medo e a insegurança que levaram o homem para a guerra e para covardias, através da progressiva e persistente agressão cultural machista, infelizmente, toda raiz desses medos  ancestrais, hoje também se insinuam no coração da mulher. Para ficar bem claro, trago esta afirmação e digo isso com base nesta minha vida, a que me referi acima, pela observação de prazer, amor e dor tidos a meu tempo, com nove companheiras, três ancestrais e mais cinco mulheres na descendência. Esse sentido ancestral do eterno feminino, a que me referi no parágrafo anterior, se situa no sentido da realidade concreta da vida. Pois sua grandeza vem associada à concepção, à paz e à segurança: essas movem a solidariedade social e o amor na mulher. Em total contraposição, a diferença crucial vinda da cultura machista, sempre associada ao patriarcado e ao impulso de guerrear pelo poder, são seus mitos e fantasias desde o conceito de vencer, eivado de seus medos, incertezas e insegurança quanto a um futuro desconhecido e abstrato: violência daí decorrente. Pior: isso que movia corações ditos machos já vem invadindo o mundo das mulheres, ou seja, mitos e irrealidades nada concretas da vida já as habitam, vindos através dos novos espaços, hoje virtuais. Esses andam cada vez mais ajustados, via mistificações publicitárias, aos grandes mercados ascendentes, de nossos modernos e contemporâneos impérios econômicos. Assim é que o medo - e a covardia com violência decorrentes dele - vem tirando a ancestral coragem da mulher, tirando sua paz e retirando suas certezas quanto ao amor, com sua importância generosa e vital e para comunidades, no verdadeiro progresso dos povos.
          
Nessa perspectiva, volto por fim ao meu pessoal ponto de vista, que reflete todas relações amorosas que tive, de plena e íntima exploração mútua de vidas compartilhadas, em cama, mesa, banho e tetos - alguns viajantes - com minhas mulheres, bem como observando amigas ou colegas e, ainda, as já citadas ascendentes e descendentes de meu sangue. Penso que a maioria delas, as mulheres da minha vida e da família, em certo momento ou estágio de enlaces amorosos, deliberadamente se afastam do companheiro ou companheira para, em certo sentido, resgatar o direito à solidão, à caça e à aventura mitológica e machista do seu tempo. Na maioria das situações abandonam o ninho em que reinavam, até determinado instante. No caso de relações hétero, é comum que essa mulher, que rompe amor e intimidade pactuado e estável, sem qualquer razão maior ou grave, tenha tido experiência nefasta na família com machos dominadores, subjugando mães, irmãs ou mesmo irmãos. Mais madura e segura, resgata o ressentimento e nega sua relação de amor para interromper ter corpo invadido ou penetrado por homem permanente, imagem que acaba por ser associada a agressor(es) em sua infância. Simples assim. Mas há também outro tipo de razão que, ao par de ser ou não penetrada como ato de entrega, a mulher se torna suficiente machista para criar filhos homens para essa supremacia e se dá, a certa altura, o mesmo direito do homem: para partir em direção ao mito do Santo Graal, ao seus sucesso, ao poder e à guerra. É então que sua soberana capacidade de amar começa desmoronar. Valores e os podres poderes do mundo já os conhecemos. E ela precisa cultuar e viver a truculência desse novo machismo, agora praticado por fêmeas predadoras, competitivas, que se desejam vitoriosas a ponto de desmerecer amor infinito, praticado por Marias e Madalenas, diante de homem amado. Esses que, a moda do Cristo, antes se fazem doce como elas e, após,  se deixam crucificar e derrotar, perdem sua vida para ganhar eternidade: na saudade e carinho de muitos, por milênios et per seculae et seculorum. Repito: Amor é valente; Guerra é medrosa. Por isso, guerra é covarde: agride ou foge, se evadindo até mesmo do Amor e da solidariedade: para com todo ou qualquer desejo alheio e coletivo.
Como os SketchBooks de hoje (amostras acima de riscos meus), as primitivas civilizações faziam crônicas desenhadas de seus Habitats (cidades estado antigas) e de seus Hábitos (cultura e a estrutura de poder entre homens, mulher e servos). Esse Hagadá de Sarayevo registra, entre as Tribos de Israel, os ambientes em cidades erigidas de Salomão à Terra Santa.

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