Corações Dispersos: Vidas Ausentes

Vejo agora que pulei o mês de junho. Assim, se foi a minha intenção de, pelo menos uma vez a cada mês, escrever neste espaço. Aproveitarei esse grave lapso, causado por mais uma encruzilhada de escolha na minha vida pessoal. Diante disso, volto ao tema das ansiedades coletivas. Elas deram nome ao nosso blog Comunidade no Divã. Inquietudes da sociedade urbana, nos cenários de hoje marcadas por excessos de informações e de estímulos diários, pautando sempre novas teorias, a receitar caminhos de felicidade infinita, venturas fáceis, alegrias inequívocas e eternas. Há urgências de buscar Happy Ends. Esses e outros motivos trazem para nossa vida cotidiana número cada vez maior de pessoas com certos comportamentos e atitudes várias que aqui, por ora e sem outra designação melhor, identificarei como Corações Dispersos.
Se algum dia agi assim em determinado momento da minha vida, peço humildemente que me perdoem. Hoje em dia sou eu quem amargo essa dura realidade, pois cada dia mais convivo com pessoas que imagino serem Corações Dispersos a meu lado ou perto de mim. São elas que costumam estar por perto, falando ou fazendo algo continuamente, em determinado espaço e local da minha vida. Todavia, o indivíduo Coração Disperso não está ligado à pessoa que está junto de si, nem ao espaço onde se encontra, nem na atividade que presumivelmente veio fazer. Sua mente insiste em permanecer longe, noutras ou noutra pessoa ausente, noutro lugar ou cidade ou mesmo país, num outro tempo que não atual, em palavra ou assunto muito diverso daquele que está sendo falado. Quem convive com Corações Dispersos se percebem invisíveis ao seu olhar distante, à sua desatenção ou à sua absoluta indiferença; totalmente ausente para com aquilo que realmente está acontecendo perto de si. Por essas e por outras, novamente me desculpo caso assim tenha agido. Pois de imediato suas presenças ferem e pouco contribuem para com seus familiares, colegas ou coletividade no entorno. Quando porventura falam, clamam por sonhos ou por pequenos prazeres distantes. E, ao assim se manisfestar, olham para os lados procurando um cúmplice do devaneio ou otário para manipular em direção a esse desejo, o qual sempre é fora deste lugar e desta circunstância real. Quando ganham simpatizantes, se tornam inconvenientes e ameaçam todos os propósitos adequados ao momento presente da maioria. Pior, essas pessoas que chamo Corações Dispersos, quando se afastam, depois quando retornam para cá, afirmam que lá, noutro espaço, momento e circunstancia que lá viveram, estiveram todo tempo pensando em você, nestas pessoas daqui, neste lugar e nestas atividades que por algum tempo relegaram a um segundo plano Ou seja, possuem lá a mesma atitude ausente que aqui praticaram ou praticarão reiteradamente.
Pior que tudo, se acostumam com isso. E passam permanentemente a ter Vidas Ausentes, aqui e acolá. Daí decorrem certas lesões em suas individualidades. Do tipo desapego geral para com agendas, pautas e todo ou qualquer tipo de compromisso, seja ele profissional, familiar ou afetivo. Cada vez mais sua satisfação se move na direção pequena de prazeres fugazes, como pequenas violações, tais como o de romper um regime alimentar, ingerir gole de bebida alcoólica durante trabalho e assim por diante. Podem confundir nomes de pessoas,  situação vivida com outra e, pior, tendo Vidas Ausentes, perderem gradualmente a capacidade de realmente desfrutar certos grandes prazeres da vida. Perdem oportunidades de se realizar num trabalho em equipe bem sucedido e vitorioso. Têm dificuldades para se manter atenta a compromissos profissionais com resultados, metas e prazos previamente definidos, agendados e pautados. Odeiam cenários e situações onde não ocorra o jogo do imprevisto, a aventura do incerto. No plano pessoal, se tornam incapazes de ter envolvimento amoroso mais intenso e gratificante, que lhes aprofunde conectividades emocionais na alma. Os prazeres mais densos e mais plenos de se aninhar em paz com outra pessoa desaparecem..
É comum, enfim, a ocorrência de Vidas Ausentes para essas pessoas de Corações Dispersos; alienação que acaba eivada de solidão nos divãs da psicanálise, ainda que essas pessoas levem  vida extremada e agitada, geralmente com muitas aventuras sentimentais. Usam e entram integralmente na vida de pessoas que admiram muito. Vivem a vida delas e depois se entendiam. Pois aquela não foi, não é e nuca será a sua vida. Quando não fazem ali estragos, simplesmente se afastam em busca de sua própria Vida Ausente. Abandonam trilhas alheias que nunca assumiram. Podem, ao fim dessas aventuras e desventuras, acabar em clínicas especializadas, sob algum diagnóstico para disfunções orgásticas ou eréteis ou doutro gênero qualquer. 
Sou arquiteto e urbanista. O espaço para se  levar a vida é meu assunto; a convivência das pessoas ou indivíduos na comunidade urbana para mim é assunto correlato ao desfrute do espaço territorial. Para minha profissão, o espaço da cidade da rua e do bairro adquire significado quando há sentido de pertencimento do cidadão a essa lugar, Sense of Place no idioma inglês. Porém me assusta, hoje em dia, aquilo que ora presumo: número cada vez mais crescente dessas pessoas de atitude desumana e sem sentido de pertencimento, os Corações Dispersos: nosso cenário cotidiano coexistindo com suas Vidas Ausentes .Elas já não habitam o dia a dia nos seus locais de trabalho e nas moradias  nas cidades. Encarnam a ficção de zumbis e dormem em vários espaços.. Estarão elas residindo no espaço virtual das grandes redes sociais, via mundo etérico da internet? A mim uma explicação desse tipo é por demais simplificada. Prefiro imaginar que as respostas existam nos terrenos da Ética e da Filosofia. Haverão ali seguramente algumas outras e novas explicações, bem mais consistentes, trazidas da memória milenar desta saga humana demasiadamente humana, ao longo de dez milênios em civilidades e urbanidades diversas.     

Comentários