Respeito aqueles que leem longas e volumosas obras. Mas também respeito os que gostam de poucas palavras. Para estes, digo que parem no título desta minha postagem. Ele sugere que cada um produza seus solitários e próprios pensares, sem qualquer necessidade de acompanhar minhas reflexões.
Dito isto, lhes digo a seguir que os desejos são inquietos, velozes e vorazes. Habitam em barracas e se movem de um a outro território no espaço do planeta. Eles migram para caçar, de universo a outro universo. Roubam aquilo que não podem sequer produzir e construir, devido à sua natureza volátil. Mas eles, os desejos, são também vulneráveis e sujeitos à escravidão, tão tribais permanecem. Já os amores são sossegados, ah, esses são algo lentos e engordam. Habitam geralmente em sólidas grutas, usam mansardas ou constroem castelos. Plantam suas sementes e criam raízes para se alimentar. E se armam para guardar as coisas e espaços onde vivem. Brigam, vencem e escravizam desejadores, caso se sintam por eles ameaçados. O resto é a própria história da humanidade. O nomadismo viu estrelas, criou ciência, álgebra, astronomia, numeração e alfabeto arábicos. O sedentarismo acumulou riqueza e ergueu cidades. Há pouco mais de um século e meio, inventou a República horizontalizada e inovou ao criar propriedade privada, repartindo continentes em imóveis, em proprietários e não proprietários.
Novamente aviso para os que gostam de leituras breves: podem parar por aqui. Pois eu sigo a tecer e tentando alinhavar, entre si, minhas mal costuradas malhas de reflexões e pensares. Na realidade e antes de tudo, são meus sentires perceptivos deste mundo. E desta nossa sociedade mutante e gritante, que age como cafetina cruel de cada recurso planetário, do qual tira e exaure toda energia ou riqueza. Pois a essa noção de propriedade imobiliária, o antídoto recém criado na Era Republicana é a função social e ambiental atribuída para cada imóvel. Entretanto esse é conceito incompleto, que anistia qualquer território que contenha atividade produtiva. Gerou ou acumulou riqueza e a propriedade já é considerada útil, mesmo que sua utilidade beneficie preponderante e exclusivamente o proprietário. Sendo assim, enquanto não se atribuir e exigir função social e ambiental à atividade econômica, se manterá imune e impune o caráter cafetino ou gigolô na exploração de recursos planetários em geral.
Que tem isso a ver com os amores e os desejos, que intitulam esta postagem? Ora ora, lhes direi daqui para frente. A Era Republicana iniciou meio século e meio atrás. Ela encerrou o segundo e deu início ao Terceiro Milênio de uma releitura histórica da Humanidade, sob à luz ou à sombra do Evangelho. Ou seja, a mensagem do rabino Jesus de Nazaré, o Cristo, que mudou fundamentos nas relações entre as pessoas e, ainda, dessas para com o ambiente planetário. Basta dizer que do Templo, erigido pelos sedentários e amorosos acumuladores, foram expulsos mercadores, numa inequívoca separação entre interesse econômico e interesse sociocultural, doravante em ruptura diante da ordem planetária e do ambiente transformado pelo aldeamento ou assentamento humano. Esse, sob o olhar cristão, separa as coisas que são de César, o governante humano, e as coisas que são de Deus, sob a égide orgânica das simples razões cósmicas ou ecológicas. A nova ordem cristã, que une o mundo hebraico e romano de valores imperiais com a visão holística, asceta e telúrica oriental, deu anistia para Maria Madalena e aos doentes, lhes conferindo cidadania, humanidade e dignidade. Mais que tudo, o evangelho uniu o desejo e amor, nômades e sedentários, patrícios e escravos, homens e mulheres. Propõe a dissolução da dicotomia e da separação entre os anjos caídos, nos seus desejos de tribos nômades e sem raízes, e os anjos do senhor imperial que, ironicamente, vencem inimigos em sangrentas batalhas, de conquista ou defesa das riquezas. Isso tudo em nome do Senhor Deus, protetor somente de determinado povo, o por ele escolhido. Por que razão só agora? Pois, ao que me parece, até que as coisas iam melhorando quando a capital mundial do cristianismo se mudou para Constantinopla, hoje Istambul, ao fim do primeiro milênio. Mas a Roma européia se reergueu, na sua aliança com gauleses, celtas e bárbaros bretões do norte, para usar cavalarias e técnicas trazidas por hunos e mongóis e, então, dissipar os "infiéis" turcos e, a seguir. assimilar suas riquezas e conhecimentos, saqueando todos os povos que liam estrelas e desenhavam letras e números analíticos, os quais, por sua natureza nômade, poucas fortificações mantinham e facilmente caiam sob grossas fundições do armamento bélico. Todo e qualquer espólio e todo caminho levaria a Roma, sob toda forma que brilhasse em ouro. como parte do Graal. Para, a seguir, ser mantida junto à Sé, mais tarde requisitada por tribunais na tal santa e rigorosa Inquisição.
Verdade seja dita: esse eterno conflito entre Desejos e Amores viveria e sobreviveria até hoje. Isso passados os períodos da Reforma Religiosa, do Iluminismo e do primeiro século na Era Republicana, com suas duas propostas laicas, nas versões Capitalista e Socialista. Isso até findar a Guerra Fria.Uma dualidade rediviva e dicotômica, entre ocidentes e orientes, na mente de cada cidadão planetário. Por essas e tantas, dentro de nossas almas ainda lutam esses anjinhos e seus diabretes "caídos". São eles a nos amargar passos e vidas, trilhas e caminhos, relacionamentos e carinhos... Como podemos nós ser assim, tão cavaleiros andantes e nômades e, ao mesmo tempo, tão necessitados do lar, ninho uterino e sedentário? Teremos que aprender a viver a simultaneidade dessas duas verdades humanas, sempre e a cada dia mais humanas, demasiadamente humanas.




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