Na política nacional, por exemplo. Este povo - abençoado por Deus e bonito por natureza -, depois de acolher a democracia da Nova República, instituída na atual Constituição Nacional promulgada em 1988, literalmente se apaixonou pelo projeto social-democrata do país, prescrito em suas densas e idealizadoras páginas, onde o regime econômico Capitalista Liberal é vigiado pelo Controle Social, eleito através das "democracias" indireta - representativa - e também direta - participativa; esta última mediante certas instâncias - consultivas, deliberativas e sistêmicas -, expressas nesses mais diversos conselhos, formado por segmentos da sociedade, e que
atuam em cada atividade setorial do interesse público. Geralmente se propõem a monitorar e manejar, segundo a cabeça do povo, o desenvolvimento: social ou humano, econômico ou produtivo e territorial ou ambiental. Isso na escala ou dimensão de cada esfera e de cada espaço federativo. Por essa razão entre outras, há vinte anos a população elegeu duas propostas e discursos socialdemocratas, nas versões uma acadêmica (FHC) e outra popular (LULA). Ambas sem saber discernir o que é, dentro de uma economia capitalista, empreendimento predatório ou especulativo, daquilo que são, por outro lado, iniciativas saudáveis do projeto capitalista mais sustentável e produtivo, ou seja, negócios com maior compromisso social e também ambiental, que respeitam seus consumidores, trabalhadores, planeta, comunidades, e diversidades ou tradições culturais. Como resultado essas gestões têm se mantido, como nos anteriores, a ouvir conversas de lobistas, vendedores de fantasias e magos, que tiram gatos travestidos de coelhos e abutres como pombas das suas sinistras cartolas. Mera paixão por socialdemocracia liberal pode cegar o amor ao próximo.
Prefiro o amor à paixão. Não poderia ser diferente, na minha idade e pela minha ideia. Sofri já muitas e várias e diversas desilusões, algumas bem recentes até. Paixões tardias, aliás, são pior do que todas as demais e quaisquer experiências. Isso que digo é para meus filhos e netos com menos de quarenta anos. Há um deles ainda machucado, prestes a transformar dor em arte, como deve ser feito e se faz neste mundo. Pelo meu lado, melhor que paixões entre personas é falar de paixões em esporte, cultura e políticas. Ou então ousar numa miscelânea de todas essas paixões, como bom bêbado e equilibrista: à Carlitos que penso ser. Por essa e outras convicções prefiro pensar que o Brasil meu país, apesar de tudo que vem acontecendo, não vai tão mal assim.
Assim sendo, ainda que haja pressão e depressão vindas lá das fronteiras europeias com o oriente; e ainda que serviços sociais internos se reprimam ou mercados imobiliários sejam instáveis em alguns dos países fortes do hemisfério norte, Deus continua a ser brasileiro, na ordem universal incidente no planeta terra. Pois aqui temos muitas reservas poderosas: de águas, terras, espaços e de ares, ainda sem fumaças ou graves impactos, apesar das lamas da mineração privatizada. Mais do que isso aqui, ao contrário do que muitos pensam, ainda vive muita, mas muita gente mesmo, gente honesta e trabalhadora. Essa nossa maior e mais silenciosa reserva. Por que eu ainda estou acreditando e me mantendo a cada dia mais convencido disso? Simples. Porque olho para o lado sempre, olho no olho para meus concidadãos de todo tipo, converso com muitas pessoas, em tudo que é canto: ônibus urbano e regional, botecos, trabalhos de rua em obras, pessoas atrás do balcão e ocorrências diversas durante o cotidiano. Nada que escuto ou vejo bate muito com a desgraça que vem das mídias, que relatam haver no nosso país um abismo, enquanto no mundo diz haver um paraíso, cujas crises são passageiras, quais surpresas ocasionais simplesmente. Essa noção vem causando debates acalorados entre amigos e vem produzindo uma queda de autoestima no povo brasileiro e na nossa classe média produtiva e mais abastada. Nosso verdadeiro povo todavia é muito sossegado e quieto. Ele está mais para o amor do que para paixão, nos termos daquilo que falei no primeiro parágrafo desta postagem. Por isso, o povo brasileiro não faz tanto barulho ou estardalhaço, como sua gente mediana e alta. Faz ritmo, música e sexo sem tanta fantasia ou alegoria assim. Concentra essas numa só data do ano: o carnaval. Assim é sob a vista de Monteiro Lobato, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha ou Graciliano Ramos entre outros.
Na verdade e sob este meu ponto de vista, a verdadeira sociedade brasileira - que é e será sempre multicultural e multirracial - sequer ainda nem foi plena e satisfatoriamente ouvida nesse crescente bate boca de caráter esquizofrênico, que incide tanto na política nacional como no chopp de bares, a discutir sobre a economia, as artes, as culturas, os esportes ou verdades morais, religiosas ou não. Na moral (seja dos bares ou dos templos) e ainda na boa, eu lhes digo: nossas reservas de paciência e sabedoria são inesgotáveis, assim também a doce preferência pela social democracia no país, caso se mantenha pacífica e não predadora, para desenhar o cotidiano de cada um nas ruas. Com economia o mesmo diapasão: que o capitalismo se mantenha liberal, não predador ou especulativo, com noções de equidade cultural e muita responsabilidade social. Pois cada brasileiro não é um número estatístico de mercado ou de produtividade. Cada um é uma pessoa que, embora invisível e quase nunca ouvida, está atenta ao que falam e fazem os donos da verdade no dia-a-dia de sua existência. Humana, demasiadamente humana. Todavia cotidiana e a cada dia mais urbana.




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