Quando falei sobre "Cidade Planejada" e sobre desencantos da comunidade quanto ao futuro, resvalei muito de leve sobre outros temas bem mais profundos, que hoje agitam nosso cotidiano, como o caso das notícias sobre segurança nas ruas e a falta de políticas públicas e culturais que promovam paz. Os mais velhos lembram de documentários europeus como "Mondo Cane" e "Mondo Infame". Os jovens mais atentos às agruras da vida, há pouco, assistiram "O Sal da Terra" codirigido por Juliano Salgado e Win Wenders. Acadêmicos preferem citar Nietzsche no seu "Ecce Homo". Todas essas obras dizem à exaustão que a humanidade é excencialmente cruel e violenta, nas suas fímbrias. Desde expulsão de Caim para leste do Éden, como reconta a genial obra literária de Steinbeck, que originou o primeiro filme do ator James Dean, entre nós denominado Vidas Amargas e dirigido por Eliah Kazan. Essas poderiam ser chamadas vidas salgadas, se de fato toda pessoa é sal da terra, humano demasiadamente humano para qualquer paz, como diria Friedrich.
Até bem pouco tempo, se imaginava no avanço tecnológico a via redentora da humanidade: no ciber espaço as pessoas se reinventando, sociedade avançando para a democracia plena, consciência social e ambiental crescentes, compassivas e solidárias, devido às condições reais de finitude planetária. Os sagrados espaços de linguagens e convívios humanos nas cidades, doravante planejados em paz, - sob consenso cultural, político e econômico -, naquilo que imaginava bem estar e bom senso como caráter comum entre todos e, portanto, pacífico e coletivo, voltado a procedimentos operacionais concretos. O que se esperava não aconteceu. Daí a gente se voltar para a memória da sociedade humana, como faz o filme Sal da Terra em relação aos que lhe antecederam, resgatando a barbárie e a gentileza dentre comunidades e etnias primitivas e remanescentes, inventariando onde se perdeu senso comum de paz, nesta saga histórica da humanidade, e onde se acirra a selvageria armada contra humanização dos povos nas cidades. Essa memória nos ajuda a não repetir Luandas e Saraievos, irmão expulsando irmão para leste do Eden, com base em juízo de valores, olhares diversos sobre mesma cena, foto ou fato, alimentando assim intolerância de grupos contra grupos, organizados e crescentemente armados.
O Estado do Direito não é uma aberração subjetiva na cabeça de cada um. Ao contrário, é aquilo que está explicitado no estatuto e na regra escrita e pactuada por determinada comunidade, devidamente identificada e situada no seu território: local, microrregional, provincial, nacional, continental ou planetário. Caso esse simples arcabouço legal ou diplomático seja desrespeitado, passa a se negar a existência condominial de Estados e Nações, resultando o anarquismo desgovernado dessa derrocada do tal Estado de Direito propriamente dito. São guerras que separam etnias, povos, grupos e famílias até então vizinhos: de rua, bairro, microrregião, mesorregião ou continente. Expulsa os mais fracos ao êxodo humano desesperado, sem qualquer esperança: pela simples e real ausência de territórios e de imóveis sem donos ou sem armas, todas elas apontadas contra tais deserdados da história humana.
Quando até as cidades têm dificuldades para fazer por consenso seus planos para o futuro, está mais que na hora da gente se debruçar sobre o passado, para então reprojetar um novo futuro. E ver o que se perdeu de bom lá atrás, no caminho. E, sobretudo, averiguar que velhas práticas ameaçadoras não foram dizimadas e agora voltaram, ainda mais fortes, atrapalhando caminhada coletiva para desfrutar democráticamente hoje o espaço urbano, no nosso presente e cotidiano. Há que se resgatar a Memória e Poética deste lugar onde vivemos, se possível com novo olhar de compreensão e compaixão para as cenas e paisagens do dia-a-dia, nesta comunidade de vizinhos, onde estão velhos e novos imigrantes. Todos eles já nos rodeiam, queiramos ou não suas presenças, como passageiros no mesmo oceano. Daí veremos como é bom ainda contar com soluções encontradas não só naquele Plano da Cidade, que foi desenvolvido entre os anos sessenta e setenta, mas também nas do século dezenove, tais como este mesmo traçado da foto acima, ainda preservado na Praça Santos Andrade e, ainda, o lago do Passeio público, ambos espaços próximos à então Sede Municipal, no atual Paço da Liberdade, e da Universidade Federal, essa ainda em obras na foto. Nenhum dirigente maluco - por ato de gestão, de gerência ou de geração promocional - reformou para "modernizar" tais iniciativas, marcantes até hoje para o nosso cotidiano. Já o hábito de publicizar e de tornar conhecidas e legíveis as regras da cidade, isso parece que, agora e recentemente, se perdeu pelo caminho. Até mesmo projetos importantes como os de mobilidade - Metrô ou Linha Verde, por exemplos -, bem como de licenciamento urbano e concessões públicas, são bem descolados da estratégia do Plano Diretor Municipal, a qual deveria integrar e planejar o futuro da cidade. Esses projetos, apesar de determinantes, entram ou saem das pautas municipais a esmo, assim como a distribuição de potenciais para construção sobre os imóveis, sempre à deriva e à reboque do poder de compra mercadológico ou da oferta de recursos.
Por essa razão, há que se recuperar um mínimo que seja daquela unidade pública de pensamento já havida entre nós sobre o futuro de Curitiba; até mesmo no desenho simplificado do seu mapa síntese, para melhor compreensão dos moradores, produtores e pensadores. Isso em toda a região do planalto metropolitano, entre seus mais diversos segmentos, como agentes do desenvolvimento que são para o desenvolvimento e a construção permanente desta grande cidade. Esse não é um desenho frio e de caráter eminentemente técnico e profissional. O que diferencia esse desenho é sua poética, que pulsa no cotidiano da urbe e em cada um dos seus bairros e vizinhanças. É fundamental promover e resgatar a memória de todos os fazeres e haveres nessa construção da cidade e dos seus desejos, bons e maus momentos vividos, alegres uns em seus acordes de valsas ou marchinhas de carnavais tristes outros como sambas ou tangos descornados. Para então, num novo plano, compor a sua sinfonia de futuro, harmônica e sem grandes dissonâncias com o passado vivido, mas sempre puxando acordes luminosos e brilhantes para sinalizar um futuro que celebre a paz e a civilidade cotidiana.
Exemplo desse ritmo e pulsação, que não nega problemas para celebrar vida e morte a cada passo ou movimento expressionista de Butoh, é o espaço urbano no Parque Memorial da Paz em Hiroshima. Ali espectros figuram esculturas humanas alegres, que sentam, dançam ou voam poeticamente sobre simulacros de mortais ogivas nucleares, sob o olhar reverente de visitantes e, diariamente, de crianças e estudantes japoneses. Eles esboçam e plantam seu futuro ao adubo da infame memória na derrota.


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